CRDT no Amapá realiza cirurgias para remoção de câncer de pele
Hospital realiza pequenas cirurgias para retirada de lesões; procedimento agiliza diagnóstico e encaminha para biópsia no Hcal.
Seu Raimundo Nonato, 67 anos, mora no bairro do Laguinho e passou o último ano olhando com preocupação para uma mancha escura no antebraço esquerdo. A ferida coçava, sangrava às vezes e não cicatrizava, apesar dos cremes caseiros que a vizinha indicava. Há duas semanas, ele entrou na sala de procedimentos do Centro de Referência em Doenças Tropicais (CRDT), em Macapá, e saiu sem aquela marca. O médico retirou a lesão ali mesmo, com anestesia local. "Foi rápido, deu um medo só na hora do corte, mas era necessário", conta Raimundo, enquanto espera o retorno para pegar o resultado da biópsia no Hospital das Clínicas.
O CRDT começou a oferecer esse tipo de cirurgia exatamente há dois meses. O serviço é novo no Amapá e promete desatar um nó na saúde pública: a fila para diagnóstico de câncer de pele. Antes, o paciente com uma lesão suspeita percorria um caminho longo, cheio de idas e vindas, e muitas vezes ficava na espera por um procedimento simples que podia ser resolvido logo. Agora, a retirada é feita no próprio centro, por um dermatologista da unidade, sem precisar de encaminhamento para fora do estado.
A regra para quem precisa do atendimento é simples, mas exige paciência no primeiro passo. O morador não chega direto no CRDT com o braço esticado pedindo ajuda. É preciso ir primeiro até a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais perto de casa. O clínico geral faz o primeiro olho. Se a ferida parecer perigosa — um sinal que mudou de cor, formato ou uma ferida que não fecha há mais de um mês — ele faz o encaminhamento para a especialidade. A regulação municipal marca a data e o paciente recebe o bilhete.
Dentro da sala do CRDT, o dermatologista avalia, aplica a anestesia local e retira o tecido. Não é cirurgia de grande porte, são procedimentos pequenos, rápidos, focados em casos iniciais. Mas é esse corte que faz a diferença. Todo o material recolhido é embalado e enviado imediatamente para o Laboratório de Anatomia Patológica do Hospital das Clínicas Dr. Alberto Lima (Hcal). É lá que o exame confirma, de vez, se é câncer ou apenas uma mancha benigna.
Desde que o serviço começou a funcionar, 65 pessoas já passaram pela mesa cirúrgica do CRDT. A fila anda, mas o atendimento ainda é criterioso. A secretaria de saúde alerta que o foco são lesões em fase inicial. O objetivo é justamente evitar que aquela feridinha pequena, ignorada no sol forte da Amazônia, se transforme em um caso grave que exija tratamento quimioterápico ou intervenção cirúrgica complexa em outro estado.
Dona Francisca Chagas, 54 anos, moradora do Buritizal, está na fila esperando a vez dela. Ela tem uma pintanha nas costas que a preocupa desde o último verão. "A filha disse: mãe, isso não era assim antes. Fui na UBS do bairro e a médica me passou o papel para cá", explica ela, ajustando o lenço na cabeça. "Estou ansiosa para tirar, porque o sol do Amapá é forte demais e a gente vive descuidando, trabalhando no quintal sem nada.
O sol da região é, aliás, o grande vilão dessa história. A exposição constante sem proteção adequada, aliada à genética, faz do câncer de pele o tipo mais comum no Brasil, e o Amapá não escapa das estatísticas. A novidade do CRDT é justamente trazer a solução para perto da casa das pessoas. O paciente sai da consulta com o curativo feito, a receita do antibiótico na mão e o protocolo do exame registrado, sem precisar pegar um avião para Belém ou Brasília para resolver um problema local.
Para quem está com uma mancha suspeita agora, o caminho não ficar em casa vendo o passar do tempo. A orientação é ligar para o 156 ou ir à UBS. Leve carteira do SUS, CPF e comprovante de residência. O médico da família vai avaliar. Se precisar, ele abre o encaminhamento no sistema. A espera pela regulação pode demorar algumas semanas, dependendo da demanda, mas a estrutura do CRDT já está montada e funcionando para receber quem precisa.
A sala de procedimentos fica no segundo piso do CRDT, bem no centro de Macapá. Quem entra ouve o barulho constante do ventilador no teto e o bater ritmado da máquina de esterilização. É um ambiente de saúde, sério, longe do alvoroço da Avenida Feliciano Coelho. "Antes a gente ficava na dúvida, achava que era só uma alergia de picada de mosquito", diz Joana D'arc, 42 anos, que tirou uma lesão no rosto na semana passada. "Hoje estou com o curativo, tomando os remédios certos e só aguardando o laudo para dormir em paz."
A expectativa da gestão é aumentar o número de cirurgias mês a mês, treinando mais equipe e ampliando os dias de atendimento. Enquanto Seu Raimundo espera o resultado do Hcal chegar pelo correio ou pelo aplicativo, ele já respira mais aliviado. O braço está curado, os pontos foram dados no local certo. Agora é só cuidar da saúde e não esquecer o protetor solar na próxima ida à praia do Araxá.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



