Formandos de Direito fazem carreata em Porto Velho para celebrar fim da graduação
Estudantes improvisaram carros de som e percorreram ruas da capital; ideia surgiu após dificuldade em contratar trio elétrico.
Rakelle Souza, 24 anos, formanda de Direito, segurou o microfone do carro de som na Avenida Campos Sales, zona Norte de Porto Velho. Eram 16h da última quarta-feira (17). O sinal abriu, o baixão estrondou e a turma gritou o último "obrigado" para os livros de código penal. Não era aula. Era carreata.
A ideia era contratar a Carreta Furacão. É o padrão em Rondônia para casamento e festa de quarentona. A turma ligou, fez orçamento, mas o trio elétrico não tinha vaga na agenda para a data da despedida. A festa corria risco de cair. Foi aí que a criatividade jurídica falou mais alto do que a burocracia do evento. "A gente começou a chamar os amigos que tinham carro de som", conta Rakelle. Em duas horas, juntaram seis carros equipados com caixas e amplificador. O custo dividiu a conta do combustível e da playlist.
A carreata saiu da faculdade, cruzou o bairro Liberdade e tomou a direção do centro. Não tinha autorização formal de fechamento de rua, mas o trânsito de fim de tarde cedeu espaço. Motoristas de ônibus da Expresso viram a chickadeira de formandos e buzinaavam em apoio. Um senhor de camisa xadrez, parado no ponto da 7 de Setembro, batia palma no ritmo do forró que tocava no Fiat Uno da frente. "Parabéns, moçada!", gritou ele.
A festa sobre rodas durou duas horas. Percorreu a Rio Madeira, voltou pela Getúlio Vargas e acabou no calçadão. Para quem passava, era só barulho. Para quem estava dentro dos carros, era o fechamento de um ciclo de cinco anos. Lucas Emanuel, 26, estava no volante de um Volkswagen Voyage equipado. Ele conta que o improviso trouxe uma intimidade que o trio elétrico gigante não teria. "Ficou mais nossa. A gente podia parar, tirar foto, abraar quem estava na rua", diz.
O grupo se formou em 2021, no meio da pandemia. A turma inteira viu o resto do curso pela tela do computador. O encontro presencial para a carreata foi, para muitos, a primeira vez que viram os colegas de calça jeans sem ser por videoconferência. "A gente passou lockdown estudando Processo Civil sozinho no quarto. Agora é poder estar junto, gritando na rua", completa Lucas.
O som alto chamou atenção, mas a Polícia Militar não foi acionada para interromper. Os carros transitavam com o cuidado de não parar o fluxo da avenida principal. A prefeitura não emitiu alvará, mas não houve registro de infração de trânsito segundo a autarquia de trânsito consultada. A celebração seguiu no limite da lei civil, mas com o volume da contravenção de som — permitida naquele horário em via pública, segundo o código de postura do município.
Ao final do trajeto, os carros se despediram no estacionamento do shopping. As caixas de som foram desligadas. O silêncio voltou para o estacionamento, mas a alegria ficou no ar. Agora começa a fase prática: a preparação para o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB. Rakelle guarda o flyer da festa como lembrança do último dia de aula. A advocacia vai começar agora. Mas a festa, ela já foi.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



