Crianças e grafiteiro pintam mural de 440 metros em Porto Velho para a Copa
Com cheiro de tinta no ar, 90 crianças transformam rua de Porto Velho em painel gigante de 440 metros celebrando o hexa e a união comunitária.
O cheiro de tinta spray ainda impregna o ar úmido de Porto Velho, um odor ácido e doce que se mistura com o pó vermelho da rua. Não é o aroma neutro de uma sala de aula climatizada, mas o cheiro de festa que subiu para o nariz de quem passava pela avenida neste domingo. Ali, estendidos por 440 metros de muro e asfalto, o verde e o amarelo não estavam na TV. Eram manchas vivas, feitas de mãozinas sujas e risadas altas. Cerca de 90 crianças, com rostos pintados e camisas de futebol, tomaram de assalto o espaço público para resgatar um clima que parecia perdido: a tal da união da Copa.
A discussão sobre se o futebol ainda enlouquece o Brasil como antes é constante nos botecos e nas redes. Mas na capital rondoniense, a resposta veio na forma de arte urbana. O projeto partiu da equipe pedagógica de uma escola particular, mas ganhou as ruas. A ideia era usar a febre do hexacampeonato não só para torcer, mas para educar. "Tirar a torcida da sala de casa e levá-la para a rua, revivendo o orgulho nacional de maneira lúdica, artística, emotiva e também pedagógica", definiu Viviani Tessele Cunha, a diretora que viu no Mundial uma chance de integrar a comunidade escolar de verdade.
Quem comandou a transformação do cinza em cor foi o grafiteiro Léo França. Acostumado à solidão do muro e ao silêncio da madrugada, Léo teve que reaprender o seu ofício ao lado de 90 assistentes barulhentos. O processo criativo, contou ele, nasceu de uma proposta simples da direção, mas ganhou vida na execução coletiva. Enquanto ele segurava as latas maiores e delineava as formas, as crianças cuidavam dos detalhes, preenchendo as lacunas com a ingenuidade de quem realmente acredita no milagre. Foi uma negociação constante entre a técnica do grafiteiro e a espontaneidade da infância.
No painel gigante, não há apenas o desenho estereotipado de uma bola ou de um craque. Há álbuns de figurinhas colecionados, bandeiras que tremem imaginariamente ao vento e camisas que guardam a história de torcedores antigos. O mural funciona como uma cápsula do tempo do que é ser brasileiro em 2026, olhando de Rondônia para o mundo. É um registro visual de como o Norte se apropria dos símbolos nacionais e os recria com o calor do trópico, sem perder a autenticidade local.
A arte urbana em Porto Velho tem essa vitalidade. Ela serve para marcar território, sim, mas também para humanizar o concreto das avenidas que cortam a cidade. Transformar uma via de passagem em um palco de 440 metros quadrados de celebridade é um ato de cidadania. As crianças que pintaram aquele muro dificilmente esquecerão o dia em que seguraram o spray e viram a cor brotar da lata, tingindo a ponta do dedo. Elas aprenderam na prática que a cidade não é só um lugar onde se vive, mas um lugar que se pode — e se deve — intervir.
A tinta já deve estar seca agora, endurecida sob o sol forte de Rondônia. Mas o efeito permanece. Quem passar pelo local vai ver não apenas um desenho grande, vai ver a assinatura de uma geração que achou que o sonho do hexa cabia todo numa esquina. É um convite para parar o carro, baixar o vidro e sentir, mesmo que de longe, o cheiro de spray e de esperança que tomou conta de Porto Velho naquele domingo.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



