Disputa de facas e escamas marca Festival do Jaraqui em Borba
Competição de limpeza de peixe reúne mestres da faca no interior do AM; técnica de duas lâminas impressiona.
O som metálico das facas raspando as escamas parece chuva fina caindo na lona. Na Vila do Canumã, a 150 quilômetros de Manaus, o cheiro de jaraqui fresco é mais forte do que o barulho do som. Lá, no último fim de semana, a destreza da mão virou espetáculo no 27º Festival do Jaraqui, em Borba. Não é apenas uma brincadeira de domingo. Limpar peixe na Amazônia é ofício, e na competição de limpeza rápida, o ofício vira arte.
A mesa é de madeira rústica, a bacia de água é barro ou plástico azul, e o adversário é o tempo. O objetivo: tirar todas as escamas e eviscerar o peixe em segundos, deixando-o pronto para o tucupi ou para o fumeiro. O público forma uma roda, torcendo como se fosse decisão de pênalti, gritando o nome do competidor mais rápido da esquina. Borba fica às margens do Madeira, e a água do rio, barrenta e forte, marca o ritmo da cidade. No dia da competição, o calor é úmido, aquele que cola a camisa nas costas, mas ninguém se importa. A atenção está na mesa.
O jaraqui, peixe de escama dura e carne saborosa, é o protagonista. Ele é o rei da mesa do amazonense no período de cheia, quando é encontrado em abundância e é vendido a preço que cabe no bolso. Ver ele ser transformado de animal inteiro em filé pronto em menos de um minuto é uma lição de economia e aproveitamento. O segredo da vitória, dizem os mais velhos, está na navalha — ou melhor, nas navalhas. Os competidores não usam uma só faca. A técnica que impressiona os turistas e viraliza nas redes sociais é a das duas lâminas: uma, mais curva e pesada, serve como espátula para arrancar as escamas sem furar a carne; a outra, reta e afiada como bisturi, abre a barriga em um só movimento certeiro.
É a coreografia do dia a dia transformada em palco. Enquanto as escamas voam — grudando na roupa de quem está por perto — a carne permanece intacta, branquinha, esperando o tempero. Entre os participantes, não há distinção de gênero ou idade. O que vale é a firmeza da pulga. Alguns competidores, pescadores da região, têm a postura de quem já fez aquela tarefa milhares de vezes antes do sol nascer. O público aplaude não apenas o vencedor, mas a beleza do gesto repetido, o ritual que alimenta a cidade.
A comida, aliás, é o motivo final de tanta habilidade. Depois da limpeza, os peixes vão direto para as panelas comuns do festival, onde são transformados em caldeiradas fartas, temperadas com cheiro verde e coentro. É o peixe que o povo come: sem frescura, mas com muito gosto. A competição, portanto, não é uma estéril disputa de tempo. É o prelúdio do almoço comunitário. Ao redor da mesa de disputa, conversas sobre a pesca do dia, o nível do rio e o preço da gasolina se misturam ao som da faca na madeira. Ver aquelas mãos calejadas trabalhando com precisão cirúrgica é entender que, no interior do Amazonas, o luxo é ter peixe fresco e a habilidade de prepará-lo com respeito.
O Festival do Jaraqui não é só sobre a velocidade. Ele celebra a abundância do rio Madeira nessa época do ano, quando o peixe sobe e a comunidade se une para comer, beber e celebrar a identidade ribeirinha. A competição, aliada ao desfile de bois e à música regional, é o ponto alto para quem valoriza a habilidade manual que passa de pai para filho. Quem quiser conferir o Festival do Jaraqui no ano que vem precisa se programar para a viagem fluvial. O evento acontece na Vila do Canumã, geralmente no mês de maio. A festa é aberta, o peixe é garantido, e a aula de como limpar um jaraqui sem perder tempo é de graça.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



