Das canoas aos negócios, cultura ribeirinha ganha espaço em feira de Belém
Debate na 1ª Feira de Empreendedores Locais discute como a arte dos 'abridores de letras' pode gerar renda e preservar a memória do Rio.
O cheiro de tinta de esmalte sintético misturado ao mormaço do rio tem um gosto de identidade. Na proa de uma das muitas canoas que cruzam o Pará, as letras não apenas nomeiam o barco; elas pintam a personalidade de quem navega. É com esse traço grosso, feito à mão livre sobre a madeira gasta, que os mestres "abridores de letras" guardam a memória das águas, um ofício que agora sai da beira do rio para o centro da discussão sobre negócios na 1ª Feira de Empreendedores Locais de Belém.
A programação deste sábado (30) traz para a capital paraense uma conversa urgente e necessária: como transformar a cultura ribeirinha em economia criativa sem perder a alma do ofício. O protagonista do debate é o Instituto Letras que Flutuam, a primeira organização do Brasil dedicada exclusivamente à preservação dos mestres que desenham as tipografias coloridas das embarcações amazônicas.
Não é apenas desenho; é cartografia de afetos. Os "abridores de letras" são os artistas que garantem que o "Rei do Rio" ou a "Rainha da Praia" cruzem as águas com cores vibrantes que competem com a floresta. O instituto, presente na feira, defende que esses mestres sejam reconhecidos como empreendedores culturais, capazes de sustentar suas famílias através da arte que aprendem olhando para o calço do porto.
A discussão toca em um ponto sensível da economia regional. Enquanto a pressão por desmatamento avança, pesquisadores e especialistas veem na bioeconomia e na economia criativa as saídas viáveis para o Norte. Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) reforçam que o setor criativo tem potencial para alavancar empregos, mantendo a floresta em pé. A ideia é valorizar o saber tradicional — saber pintar, saber navegar, saber contar história — como mercadoria valiosa no mercado urbano.
Na feira, o visitante não vai encontrar apenas gráficos de PIB. Vai encontrar a estética do Rio materializada em produtos de design e moda, criados por quem entende que a cultura é o maior ativo da Amazônia. É a oportunidade de ver de perto como o traço singelo de um pincel ribeirinho pode virar marca, camiseta, objeto de desejo e, principalmente, orgulho regional.
A 1ª Feira de Empreendedores Locais de Belém acontece neste sábado (30), em local a ser definido na capital paraense. O evento é gratuito e promete conectar quem produz com quem consome a cultura da floresta. Quem passar por lá vai perceber que as letras que flutuam nas águas do Pará agora querem flutuar também no mercado, sem mudar de cor.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



