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Das canoas aos negócios, cultura ribeirinha ganha espaço em feira de Belém

Debate na 1ª Feira de Empreendedores Locais discute como a arte dos 'abridores de letras' pode gerar renda e preservar a memória do Rio.

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Karina Pinheiro
Pará · AM
27 de mai. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 420 palavras
Tipografia colorida pintada em madeira de casco de barco exposta em estande de feira em Belém.
Debate na 1ª Feira de Empreendedores Locais discute como a arte dos 'abridores de letras' pode gerar · Foto: Redação Nortícia

O cheiro de tinta de esmalte sintético misturado ao mormaço do rio tem um gosto de identidade. Na proa de uma das muitas canoas que cruzam o Pará, as letras não apenas nomeiam o barco; elas pintam a personalidade de quem navega. É com esse traço grosso, feito à mão livre sobre a madeira gasta, que os mestres "abridores de letras" guardam a memória das águas, um ofício que agora sai da beira do rio para o centro da discussão sobre negócios na 1ª Feira de Empreendedores Locais de Belém.

A programação deste sábado (30) traz para a capital paraense uma conversa urgente e necessária: como transformar a cultura ribeirinha em economia criativa sem perder a alma do ofício. O protagonista do debate é o Instituto Letras que Flutuam, a primeira organização do Brasil dedicada exclusivamente à preservação dos mestres que desenham as tipografias coloridas das embarcações amazônicas.

Não é apenas desenho; é cartografia de afetos. Os "abridores de letras" são os artistas que garantem que o "Rei do Rio" ou a "Rainha da Praia" cruzem as águas com cores vibrantes que competem com a floresta. O instituto, presente na feira, defende que esses mestres sejam reconhecidos como empreendedores culturais, capazes de sustentar suas famílias através da arte que aprendem olhando para o calço do porto.

A discussão toca em um ponto sensível da economia regional. Enquanto a pressão por desmatamento avança, pesquisadores e especialistas veem na bioeconomia e na economia criativa as saídas viáveis para o Norte. Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) reforçam que o setor criativo tem potencial para alavancar empregos, mantendo a floresta em pé. A ideia é valorizar o saber tradicional — saber pintar, saber navegar, saber contar história — como mercadoria valiosa no mercado urbano.

Na feira, o visitante não vai encontrar apenas gráficos de PIB. Vai encontrar a estética do Rio materializada em produtos de design e moda, criados por quem entende que a cultura é o maior ativo da Amazônia. É a oportunidade de ver de perto como o traço singelo de um pincel ribeirinho pode virar marca, camiseta, objeto de desejo e, principalmente, orgulho regional.

A 1ª Feira de Empreendedores Locais de Belém acontece neste sábado (30), em local a ser definido na capital paraense. O evento é gratuito e promete conectar quem produz com quem consome a cultura da floresta. Quem passar por lá vai perceber que as letras que flutuam nas águas do Pará agora querem flutuar também no mercado, sem mudar de cor.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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