Festival Brasil Sabor junta futebol e cozinha amazônica em Macapá
Edição de 20 anos no Sambódromo oferece pratos de R$ 35 inspirados em seleções mundiais com ingredientes locais.
O cheiro de pirarucu frito na manteiga de garrafa invade as arquibancadas do Sambódromo antes mesmo do apito inicial. Em Macapá, o futebol deste ano se joga sobretudo com garfo e faca. É a edição de 20 anos do Festival Brasil Sabor, que transforma o gramado do maior palco carnavalesco do Amapá em um campo onde a seleção da cozinha brasileira — e sua relevância mundial — entra em campo com cheiro de cúrcuma e gosto de açaí. Aqui, o "joga bonito" não é apenas o drible do jogador, mas a habilidade do cozinheiro em driblar a necessidade de ingredientes importados para fazer um prato que se diz chinês ou francês, mas que tem raízes fincadas no Oiapoque.
Entre os dias 29 e 31 de maio, o evento une duas paixões que no Norte costumam ser servidas na mesma mesa: a bola e o prato feito. A proposta da Abrasel Amapá, em parceria com o Governo do Estado, é armar um "mundo" em 33 tendas. Cada uma delas representa um país que dispute a Copa, mas o uniforme é tecido com fios da floresta. Não se procura aqui o sushi de Tóquio ou a massa de Nápoles pela fidelidade europeia, mas pela leitura que o chef amapaense faz deles usando o bacaba, o tucupi ou o filhote. É a identidade tucuju vestindo a camisa 10 do mundo.
São 33 restaurantes, do centro às margens da cidade, unidos por uma regra rígida e democrática: o prato custa R$ 35. É um convite para que o morador de Macapá e o turista que chega de barco possam "jogar" várias partidas em uma única noite, sem que o placar do cartão de crédito estoure. "É um festival totalmente inovador, tanto pra gente quanto pro Brasil. O evento acontece simultaneamente em todo o país, mas aqui a nossa identidade tucuju é o xodó", explica Sandro Belo, presidente da Abrasel no estado. Para ele, o desafio dos cozinheiros foi traduzir o alemão ou o argentino sem perder o sotaque do Marajó e do Oiapoque.
A releitura começa na matéria-prima. O filé ao molho madeira pode ganhar corpo com o vinho de jenipapo, enquanto um street food americano, como o hambúrguer, pode ser reformulado com o cupuaçu na calda e a carne de sol desfiada. A ideia é mostrar que a gastronomia do Amapá tem capacidade de competir em qualquer campeonato internacional sem precisar importar a alma do prato. O açaí não é apenas sobremesa; vira calda para fondue, base para mousses que representam o frio da Rússia ou do Canadá, adaptados para o calor úmido amazônico.
Pense em um prato que homenageia o Japão. Em vez do arroz tradicional, talvez o chef use o arroz de cubiu, com sua acidez peculiar que lembra o limão, acompanhado de um filé de tambaqui grelhado no bambu, lembrando a textura da carne bovina, mas com o gosto do rio. É a gastronomia de fusão sendo feita de verdade, não como marketing de restaurante chique, mas como experimentação popular numa barraca de feira. Isso é o que o festival oferece: a chance de provar o Brasil sabendo que se está comendo o Amapá.
O Sambódromo, palco que em fevereiro vê o desfile das escolas de samba com seus carros alegóricos de milhares de lâmpadas, em maio vê o desfile dos sabores que constroem a identidade de um povo que se alimenta da floresta e do rio. A iluminação da festa não vem apenas dos refletores, mas do brilho do azeite de dendê nas panelas e das cores dos frutos do bioma dispostos nos bufês. É uma festa popular moderna, onde o "fuxico" da roda de conversa gira em torno de qual país foi melhor representado no prato.
O Festival Brasil Sabor acontece de quinta a sábado, 29 a 31 de maio, das 18h à meia-noite, no Sambódromo de Macapá. A entrada é franca, e os pratos são pagos à parte diretamente nos estandes. Para garantir o "gol de placa", recomenda-se chegar cedo, antes que os melhores ingredientes — como o filé fresco de peixe ou as frutas recém-colhidas — acabam.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



