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Nortícia BoaCaminho do Sangue

Há 32 anos, Durval repete o gesto que salva vidas em Manaus

Gerente de logística soma 116 doações inspirado pela mãe, enquanto empresário recebe a vida de volta em tratamento no Hemocentro de Manaus.

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Padre Bruno Sena
Amazonas · AM
18 de jun. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 547 palavras
Carteiras de doador de sangue espalhadas sobre mesa em Manaus.
Gerente de logística soma 116 doações inspirado pela mãe, enquanto empresário recebe a vida de volta · Foto: Redação Nortícia

Durval Almeida, 50 anos, espalha as carteiras sobre a mesa de vidro da sala em Manaus com a calma de quem organiza um tesouro. Há a primeira, toda amarrotada, do tempo em que tinha 18, e depois as sequências: a prateada, a dourada, a de diamante. Cada carimbo, cada data, é um registro de um momento em que ele parou o mundo para estender o braço. São 116 doações em trinta e dois anos de caminho. "A meta é chegar a 120", diz ele, passando o dedo pela capa da carteira nova que ainda está em branco.

Começou não por um decreto ou uma campanha de rádio, mas por herança. A mãe dele doava, e aquele hábito materno entrou na corrente. Aos 18 anos, ele foi atrás do mesmo lugar. Desde então, a rotina é sagrada. Vai ao Hemocentro, faz a triagem, senta na poltrona azul, sente a picada e assiste ao sangue sair. Para quem não conhece, parece um procedimento clínico, frio. Para Durval, é um exercício de confiança. É acreditar que o que sobra dele, o que tem de sobra, serve para alimentar a vida de outro.

A cidade lá fora é agitada. Manaus, com seu calor úmido e seus problemas, segue o ritmo alucinado do trânsito e do comércio. Mas dentro do Hemocentro, o tempo parece outro. Há uma silenciosa circulação de generosidade. Durval pensa nisso enquanto preenche os formulários. Ele sabe que o sangue dele não vai para um armário eterno. Ele tem um destino, um corpo que o pede urgentemente.

Quem tocou nessa urgência de perto foi o empresário Erick Lira. Ele conta a história de quem viu a reserva baixar perigosamente. Durante um tratamento, precisou de seis bolsas. É um número pequeno se for olhado no papel, mas imenso quando se sabe que cada bolsa significa uma vontade alheia, um tempo de alguém que foi lá doar. Enquanto Erick recebia, lutava para manter-se firme, não era o sangue de um parente, era o sangue da comunidade, anônimo e vital.

"Infelizmente, uma pessoa acidentada precisa", diz Durval, lembrando a fragilidade da existência. Não há aviso prévio para acidentes ou emergências. O sangue não pode ser fabricado em indústria; ele tem que vir de nós. É uma dependência que nos iguala, que nos faz uns credores dos outros. No ato de doar, a gente aprende que não é dono de nada, nem mesmo do próprio fluxo vital.

Durval fala da mãe com um brilho no olhar. Ela não está mais aqui, mas o legado dela corre nas veias de quem, hoje, recebe o sangue do filho. É uma corrente que se estende no tempo e no espaço. O empresário Erick e o gerente Durval talvez nunca se cruzem na avenida, mas suas vidas se entrelaçaram num laboratório, numa transfusão que mudou o desfecho de uma doença.

No final da manhã, Durval recolhe as carteiras. Guarda a prateada e a dourada de volta na gaveta, mantém a nova à mão. O sol bate forte na janela, aquecendo o chão da sala. Ele sabe que da próxima vez que voltar, o carimbo vai bater de novo, e algum paciente, em algum quarto escuro ou iluminado de Manaus, vai sentir o fôlego voltar. É o milagre simples, repetido, sem alarde, que faz o girar do mundo.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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