Especialistas alertam para queda rápida de rios no Amazonas devido ao El Niño em 2026
Cientistas do Inpa e SGB preveem cenário de estiagem agravada no segundo semestre, com risco de descida brusca do nível das águas.
O Rio Negro carrega uma cor de chá preto e gelado hoje, mas algo na sua margem sugere um cansaço antecipado. Na comunidade de São Raimundo, no trajeto que liga a periferia de Manaus ao interior, a senhora Francisca das Chagas, ribeirinha de 62 anos, puxa o seu barco com mais força do que o costume. A água já não beija a raiz da samaúma onde ela costumava amarrar a corda; o nível baixou, e o mês é apenas maio. É ali, no varadouro, que a notícia que sai dos computadores do Serviço Geológico do Brasil (SGB) encontra o chão.
O alerta é técnico, mas o entendimento é imediato para quem vive da calha fluvial. Na sexta-feira (29), durante a apresentação do 3º Alerta de Cheias do Amazonas 2026, realizada na sede do SGB em Manaus, os pesquisadores desenhou um cenário preocupante para o segundo semestre. Embora os rios monitorados estejam, no momento, abaixo da cota de inundação severa e mostrem sinais de estabilização, a previsão aponta para uma mudança brusca nesse quadro. O fantasma que paira sobre a floresta tem nome de fenômeno climático: o possível avanço do El Niño.
Para a ciência, o El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na região próxima ao Equador, um mecanismo que altera a circulação atmosférica global e puxa para longe da Amazônia as nuvens de chuva. Para o pesquisador Renato Senna, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o perigo não é apenas a seca, mas a velocidade com que ela pode se instalar. "O start do evento no início do segundo semestre pode trazer esse risco de descida rápida dos níveis dos rios", explicou Senna. É uma queda acentuada, um esvaziamento que pode agravar o período de estiagem muito antes do previsto.
A memória de 2023 ainda assombra as margens dos rios Negro e Solimões. Naquele ano, a seca histórica não foi apenas um evento natural; estudos indicados por especialistas mostraram que as mudanças climáticas tiveram peso maior do que o próprio El Niño naquele desastre. A floresta estava mais quente, e o ar mais seco. Se o padrão se repete em 2026, o isolamento das comunidades ribeirinhas e indígenas pode chegar mais cedo, transformando os igarapés em filetes de lama e impossibilitando o tráfego de pequenas embarcações, as únicas vias de acesso para remédios, alimentos e escola.
No varadouro, Francisca das Chagas termina de ajustar a amarração. Ela olha para o traço de lama que já começa a aparecer no tronco da árvore, a marca visível de que o nível está recuando. Ela sabe que o rio tem seu tempo, de cheia e vazante, mas percebe que esse tempo está sendo acelerado por forças que ela não vê, mas que sente na pele e na dificuldade do dia a dia. O Rio Negro continua correndo, preto e silencioso, carregando em suas águas não apenas sedimentos, mas a incerteza de um ciclo que se torna cada vez mais extremo.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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