Garantido e Caprichoso realizam últimos ensaios técnicos abertos no Bumbódromo
Arena abre portas para ajustes finais de luz e som antes dos três dias de disputa pelo título de 2026.
O cheiro de tinta à óleo e poeira de serra ainda impregna o nariz de quem chega perto da arena. É domingo à noite em Parintins, e o som da primeira batida da bateria do Boi Garantido ecoa pelo Bumbódromo vazio, reverberando nas cadeiras de concreto antes de encontrar o público. É o ensaio técnico aberto, o momento em que a magia perde o segredo para ganhar o ossuto.
A reta final do Festival de Parintins não é feita apenas de glória, mas de ajustes milimétricos de som e luz. No próximo domingo (21) e na terça-feira (23), as agremiações Garantido e Caprichoso abrem as portas do Bumbódromo para a comunidade e turistas verem o bastidor da guerra. São as últimas chances de calibrar a evolução dos 500 componentes da galera antes que as notas do júri oficial comecem a cair. É a festa popular despid do estresse da noite oficial, ganhando um caráter quase de ensaio geral de uma ópera amazônica.
João "Pardal" Alves, 24 anos, é galera do Garantido e está na quarta categoria. Ele ajusta a lantejoula no ombro, fixando o olhar no centro do círculo onde a cabeça do boi se levanta. "A gente está testando o Portal do Encantamento. Hoje a luz tem que bater exato no momento que a rainha entra, senão a ilusão quebra", explica ele, secando o suor da testa com a manga. O tema deste ano, defendido pelo atual campeão, propõe uma imersão nas matas sagradas, narrativas orais e a mystique da floresta amazônica. Não é apenas um enredo, é um convite para atravessar um limiar onde o real e o mítico se confundem no caldeirão cultural do Amazonas, exaltando a identidade do povo parintinense que vive às margens do rio.
Para a pesquisadora cultural Maria do Socorro, estes ensaios técnicos são onde a lenda ganha humanidade. "É ali que a gente vê o esforço do arpista, o cansaço do maracazeiro. A festa não acontece só no palco iluminado, ela começa no ensaio suado, na troca de equipamento, no medo de errar e na vontade de acertar", diz a professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). O ensaio serve para calibrar não apenas a sonorização que compete com o barulho dos insetos na beira do rio, mas a emoção coletiva. É o momento de testar a acústica da "boca" do Bumbódromo, a estrutura que projeta o som para a cidade que dorme acordada.
Na terça, a vez do azul. O Caprichoso ocupa o espaço para testar a precisão da sua narrativa e a firmeza do passo de marca. A disputa, que vai de 26 a 28 de junho, é mais do que uma competição; é a manutenção de uma identidade regional que resiste ao turismo massificado e à pasteurização das grandes redes. Enquanto o sul do país assiste pela TV, em Parintins o detalhe tátil importa: o peso da fantasia, o ritmo do pisar no chão de terra batida, o grito de guerra que engrossa a garganta. O Bumbódromo, projetado por Aurélio Hime, é uma caixa de ressonância única, e nestas duas noites ele pertence ao povo antes de pertencer aos jurados.
A iluminação é personagem à parte. No ensaio, técnicos correm de um lado para o outro com walkie-talkies, gritando códigos que só eles entendem, enquanto testam os refletores que simularão o nascer do sol amazônico e a escuridão das matas densas. A eletricidade no ar não é apenas a dos cabos no chão, mas a da expectativa. O encontro de fãs e torcedores no entorno da arena já começa a formar a ficha técnica do que será a festa. Vendedores de tacacá e churrasco no espeto preparam as carcaças, o cheiro de fumaça se mistura ao perfume das pulseiras de maracá.
O ensaio do Garantido é neste domingo (21), às 20h. O do Caprichoso, na terça (23), no mesmo horário. A entrada é franca, mas o lugar é por conta de quem chega primeiro para ver o encantamento se desenrolar antes do calendário oficial virar.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



