Defesa Civil do Amapá prevê estiagem severa para segundo semestre de 2026
Previsão indica efeitos intensos de El Niño e risco de incêndios no norte do Amapá após período de cheias.
O barro ainda está mole nas margens do rio que banha Ferreira Gomes, mas o sol, insistente, já traça rachaduras na terra que há poucas semanas estava submersa. No norte do Amapá, a paisagem muda de posição com uma velocidade que assusta quem vive da leitura das águas: a enchente que deixou mais de mil pessoas atingidas cedeu lugar ao alerta de seca, anunciado pela Defesa Civil como o mais intenso dos últimos anos para o segundo semestre de 2026.
Não é apenas uma previsão meteorológica para ser lida no boletim oficial; é a antecipação de um período difícil para quem cultiva a roça, quem pesca nos igarapés e quem depende dos caminhos que se abrem e se fecham conforme a chuva. O secretário de Defesa Civil do Amapá, Frederico Medeiros, falou sobre um cenário crítico, onde a estiagem deve ser mais severa que a habitual, trazendo consigo o fantasma dos incêndios florestais e da falta d'água. O aviso ecoa com força em municípios como Tartarugalzinho, que conhece bem a cara da emergência climática: foram três anos seguidos decretando estado de calamidade pública por conta da seca e do fogo que devora a vegetação.
A ciência climática explica o que o corpo sente no território. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta que os efeitos extremos do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, devem se estender até agosto. Esse aquecimento libera uma quantidade excessiva de umidade na atmosfera, desorganizando os padrões de chuva em todo o globo e, especificamente na Amazônia, resultando nesta ausência prolongada de precipitação.
É um ciclo de extremos. Enquanto o mundo discute as mudanças climáticas nas conferências, no chão amapaense a realidade se traduz na alternância brusca entre portas fechadas por causa da inundação e janelas seladas por causa da fumaça. A transição atual é considerada "tranquila" pelas autoridades em comparação ao pico das cheias, mas a atenção agora se volta para a prevenção. O risco de queimadas, agravado pela vegetação seca e pelo calor, exige um monitoramento constante das áreas de floresta e dos assentamentos humanos.
Para as comunidades do interior, o desafio é o manejo deste tempo instável. A estiagem afeta a pesca, que depende da piracema e do nível adequado dos rios para a reprodução das espécies, e compromete o transporte fluvial, a principal via de acesso para muitas localidades isoladas. A seca de 2026 não é uma ameaça distante; ela já começa a ser desenhada nas folhas que começam a cair antes do tempo e no chororó dos pássaros que buscam água onde antes havia fartura.
O Estado se prepara, com a Defesa Civil monitorando os índices pluviométricos, mas a adaptação acontece também nas pequenas rotinas. É a cisterna que precisa estar cheia, a roça que precisa ser planejada, o olho atento ao horizonte para que o fogo não encontre caminho na floresta. O que se espera, agora, é que a chuva que partiu deixe espaço apenas para o sol necessário, não para o incêndio que apaga.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
Leia também —
ver mais em Amazônia →
Nortícia AmazôniaSemana do Clima da Amazônia une bioeconomia e saúde em Belém
Nortícia AmazôniaJustiça Federal torna réus 13 suspeitos de garimpo ilegal na Flona Urupadi
Nortícia Amazônia