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A paxiúba e a ilusão da palmeira que 'anda' pela floresta de Rondônia

Pesquisadora da Unir explica que a 'caminhada' da paxiúba é uma ilusão ótica gerada pela morte de raízes velhas e nascimento de novas.

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Bianca Aroucha
Rondônia · AM
07 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 645 palavras
Raízes altas da paxiúba se destacam na mata de Rondônia, sustentando o tronco sobre o chão úmido.
Pesquisadora da Unir explica que a 'caminhada' da paxiúba é uma ilusão ótica gerada pela morte de ra · Foto: Redação Nortícia

Sob o dossel fechado da mata de Rondônia, a luz chega em retalhos. Onde o sol vence a folhagem, cria-se um palco de vida frenética; onde a sombra reina, o tempo parece adormecer. Nesse cenário de contrastes, ergue-se uma figura que desafia a lógica do que esperamos de uma árvore. A paxiúba, ou Socratea exorrhiza, não se assenta pesadamente sobre o chão como o mogno ou a castanheira. Ela flutua, suspensa por um emaranhado de raízes finas e longas que lembram, à primeira vista, pernas de aranha ou varas de madeira tombadas na terra.

Quem percorre os campos experimentais da Universidade Federal de Rondônia (Unir) ou adentra as áreas de transição entre o cerrado e a floresta em Porto Velho certamente já cruzou com ela. Entre os moradores, entre os ribeirinhos que navegam os igarapés e os extrativistas que conhecem a madeira, circula a história de que essa palmeira anda. Dizem que ela percebe a sombra de uma vizinha mais alta e, pacientemente, move suas raízes para buscar um lugar ao sol. É um relato que desperta a imaginação, uma fantasia de uma floresta que se desloca enquanto dormimos.

Mas a floresta não precisa de mentiras para ser fascinante, e a ciência, quando se debruça sobre o chão da Amazônia, costuma desvendar mistérios ainda mais profundos que a lenda. A doutora em Botânica Osvanda Silva de Moura, professora e pesquisadora da Unir, dedicou parte da sua carreira a entender a arquitetura dessas plantas que habitam o solo muitas vezes encharcado e instável da região. Para ela, a 'caminhada' da paxiúba é, na verdade, uma ilusão de ótica gerada pela própria morte e renascimento da planta.

O tronco da paxiúba, na verdade, não se move. Ele não possui sistemas musculares nem mecanismos de locomoção. O que acontece é um processo lento e contínuo de substituição de suas bases. As raízes escora — que podem chegar a medir dois metros de altura — têm uma vida útil. Elas nascem nas partes mais altas do caule e descem até o chão para firmar a planta. Com o tempo, as raízes mais antigas, na extremidade oposta do crescimento, apodrecem e se desfazem na terra, retornando ao ciclo de nutrientes. Novas raízes surgem na frente, sustentando o peso do tronco que cresce em busca de luz.

Se a planta cresce inclinada para um lado buscando uma clareira, e as raízes de trás morrem, a impressão visual é que ela deslocou o centro de gravidade. 'É um processo natural de substituição das raízes de apoio', explica Osvanda. 'Novas raízes crescem e as antigas se decompõem, gerando uma falsa sensação de movimento'. Para quem visita a floresta com intervalos de anos, a planta parece ter migrado metros à frente. Mas ela apenas esticou o corpo e deixou cair o que não precisava mais.

Essa adaptação evolutiva não é uma falácia; é uma solução brilhante para a sobrevivência em um ambiente competitivo. Em solos pobres e alagados da bacia amazônica, as raízes aéreas permitem que a paxiúba respire acima do nível da água e alcance estabilidade sem precisar de um caule grosso e caro. É uma estratégia de economia de recursos. A planta investe em raízes que funcionam como cimbres de ponte, sustentando-a sobre o lodo e a lama, garantindo que ela permaneça de pé mesmo quando o vento ameaça derrubá-la.

A lenda da palmeira que anda talvez nasça da nossa necessidade humana de animar o mundo, de ver espírito onde há biologia. Mas talvez seja mais respeitoso reconhecer a engenharia que existe ali. A paxiúba não anda, mas ela se recria constantemente. Ela negocia seu espaço no mundo de forma estática, mas dinâmica em sua estrutura. Ela é uma testemunha fixa das transformações da floresta, criando raízes novas enquanto as velhas se vão, um ciclo de vida e morte que acontece na velocidade do musgo, mas que sustenta a floresta em pé.

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◆ Repórter · Nortícia Amazônia

Bianca Aroucha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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