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Nortícia AmazôniaPatrimônio do Cerrado

Pedra Furada no Jalapão é releitura geológica do tempo antigo

Formação arenítica esculpida por rios desaparecidos resiste à erosão e desafia a imaginação dos visitantes no Tocantins.

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Bianca Aroucha
Tocantins · AM
06 de jun. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 510 palavras
Vista do arenito dourado da Pedra Furada contra o céu azul no Jalapão.
Formação arenítica esculpida por rios desaparecidos resiste à erosão e desafia a imaginação dos visi · Foto: Redação Nortícia

A luz do fim da tarde entra por aquele vão arenítico como se fosse um foco de palco iluminando o fundo do palco. No Jalapão, onde o Cerrado estende suas cobertas de capim dourado e areia quartzítica até onde a vista alcança, a Pedra Furada se impõe como um vigia silencioso de uma história que começou muito antes de existirem estradas ou máquinas fotográficas. É ali que o turista para, respira um ar mais seco e tenta entender como um buraco tão perfeito atravessa aquela parede gigantesca de pedra.

Para decifrar esse enigma, é necessário desligar o olhar do presente e ligar a imaginação para o que os geólogos chamam de paleoambiente. Não é apenas uma rosta bonita para o Instagram; é um documento geológico em pé. Sanclever Freire Peixoto, doutor em geologia pela Universidade de Brasília, estudou a estrutura e conta que o que vemos hoje é o que sobrou de uma guerra perdida contra a água e o vento. "A gente tem que imaginar sempre o ambiente antigo. O paleoambiente tinha os seus rios que cortavam toda essa região", explica Sanclever. A água foi a escultora principal, aqueles dutos internos por onde as pessoas passam hoje para tirar fotos foram, um dia, canais de fluxo intenso.

O processo é uma lição de paciência. Ao longo de milhares de anos, a água correu, cavou, carregou partículas e deixou para trás apenas a porção mais resistente daquele grande maciço. O restante foi erodido e levado embora, transformado em sedimento que, quem sabe, alimenta hoje as praias de rio do Baixo Tocantins ou as várzeas do Araguaia. O vento também ajudou, soprando incansavelmente contra as paredes, polindo a arenite até que ela ficasse lisa ao toque e com a cor que muda conforme o ângulo do sol incide sobre os grãos de quartzo.

Essa resistência é o que permite que a Pedra Furada esteja lá hoje, erguendo-se como um monumento sobre as dunas. Mas é também um lembrete da fragilidade do sistema que a criou. O Jalapão é um mosaico de ecossistemas únicos, situado numa zona de transição que dialoga com a Amazônia e com o Cerrado stricto sensu, mantendo águas que nascem limpas e atravessam o país. A conservação desse território não é apenas sobre preservar a beleza cênica que atrai visitantes de outros continentes; é about garantir que o solo que sustenta essas rochas não seja transformado em desertificação by nossa própria pressa.

Quando os visitantes se enfileiram para o registro fotográfico, muitos não percebem que estão pisando em um terreno que já foi leito de rio, que já foi fundo de mar em tempos ainda mais remotos. A geologia não lê calendários gregorianos, opera em escalas que desafiam a nossa compreensão humana de tempo. Enquanto a gente se preocupa com o horário do pôr do sol, a pedra lembra a persistência dos elementos. O sol se põe, o mormaço desce, e a Pedra Furada continua lá, furada, resistente, guardando a memória da água que já não passa por dentro dela, mas que ainda define a vida ao redor.

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◆ Repórter · Nortícia Amazônia

Bianca Aroucha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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