Pecuária no sudeste do Pará torna estado o 2º maior emissor de metano do Brasil
Estado fica atrás apenas de Mato Grosso; emissões do gado impulsionam o aquecimento global e alteram o regime de chuvas na Amazônia.
O vento que sopra sobre o Xingu mudou. Antes, ele trazia a umidade da floresta, aquele cheiro de terra molhada e folhagem em decomposição que os povos originários conhecem como o sopro da vida. Hoje, em grandes trechos do sudeste do Pará, especialmente ao redor de São Félix do Xingu, o vento carrega o calor direto do pasto exposto e a poeira levantada pelo casco do gado. É ali, na fronteira onde a mata cedeu espaço para o boi, que se concentram os números que alarmam os cientistas do clima: o Pará tornou-se o segundo maior emissor de metano do Brasil, perdendo apenas para Mato Grosso, e a principal causa desse gás invisível, mas potente, está exatamente na agropecuária que transformou a paisagem.
O metano não é apenas um gás; é um sinal de alerta. Com um potencial de aquecimento global até 80 vezes maior que o dióxido de carbono nos primeiros 20 anos após ser lançado na atmosfera, ele é o que os pesquisadores chamam de "superpoluente de curto prazo". Enquanto o mundo discute cortes de carbono para o final do século, o metano queima a casa hoje. E o Pará, com seus mais de 25 milhões de hectares de pastagem, é uma das chaminés dessa fogueira. Dados recentes apontam que o Brasil, apesar de ter assinado o Compromisso Global de Metano na COP 26, viu suas emissões aumentarem 6% entre 2021 e 2024. No mapa desse aquecimento, o estado do Norte brilha em vermelho, impulsionado por municípios como São Félix do Xingu, Marabá, Altamira e Novo Repartimento.
Em São Félix do Xingu, o maior rebanho bovino do país espalha-se por onde antes havia as castanheiras e as aldeias dos Arara, dos Xipaya e dos Kuruáya. Desde 2014, o município lidera o ranking nacional de cabeças de gado, uma marca que reflete um modelo de desenvolvimento que prioriza a exportação de carne em detrimento da conservação da floresta em pé. Não é apenas uma questão de escolha econômica; é uma questão de atmosfera. Cada bovino, através da digestão fermentativa no rúmen, libera metano. Multiplicado por milhões em uma área que foi desmatada, o vira-vento que refrescava a calha do rio Xingu torna-se um vetor de calor global.
A ciência, representada por institutos como o INPE e por plataformas como o SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa), coloca os números na mesa para que não possam ser ignorados. O que acontece no sudeste do Pará não fica ali. O calor gerado pela emissão desenfreada de metano altera o regime de chuvas na Amazônia inteira, afeta a agricultura no Sul do país e eleva a temperatura dos oceanos, ameaçando as cidades costeiras. É uma cadeia de causa e efeito que começa na derrubada de uma árvore e termina na mudança climática severa que já atinge as comunidades ribeirinhas, que sofrem com rios que secam antes da hora.
No fim de maio, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução histórica que acolhe o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça sobre as obrigações dos Estados no combate às mudanças climáticas. Isso significa que países como o Brasil podem ser responsabilizados não apenas internamente, mas no direito internacional, por políticas que aceleram a destruição ambiental. No contexto do Pará, a resolução coloca mais pressão sobre o governo estadual e sobre os prefeitos desses grandes municípios pecuaristas. Não basta mais plantar árvores para compensar; é preciso parar de emitir, e parar de emitir significa repensar o tamanho do rebanho em áreas críticas de floresta.
Enquanto as negociações climáticas seguem em Genebra e Nova York, na ponta da estrada de terra em São Félix do Xingu, o dia segue quente. O gado continua pastando em áreas que recentemente eram mata, e o metano segue subindo, invisível, para as camadas altas da atmosfera. O desafio para o Pará, e para toda a Amazônia, não é apenas econômico, mas existencial: saber até onde o boi pode avançar sem que o clima, que sustenta a floresta e o próprio gado, colapse de vez. O vento que sopra sobre o Xingu hoje já não é o mesmo de trinta anos atrás; a pergunta é se ainda teremos tempo para sentir, novamente, o cheiro da chuva que anuncia a floresta viva.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



