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Nortícia AmazôniaFauna em risco

Mãe e filhote de bugio são resgatados após choque em Alta Floresta d'Oeste

Animais foram encontrados com sinais de descarga elétrica em área rural de RO e passam por tratamento veterinário.

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Bianca Aroucha
Rondônia · AM
04 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 618 palavras
Macaco bugio pousa em galho de árvore em fragmento de floresta em Rondônia.
Animais foram encontrados com sinais de descarga elétrica em área rural de RO e passam por tratament · Foto: Redação Nortícia

O céu de Alta Floresta do Oeste, em Rondônia, está dividido. De um lado, o verde fechado da mata que resiste; do outro, a geometria dos fios elétricos que cortam a paisagem rural. Foi nessa fronteira silenciosa que uma macaca bugio e seu filhote foram encontrados caídos, no chão de terra batida, longe do dossel onde deveriam estar dormindo ou viajando. Eles não estavam descansando. Os corpos tremiam e apresentavam marcas de fogo, sinais de uma força estranha que não pertence à floresta: a corrente elétrica.

Os moradores da propriedade rural ouviram o ruído ou viram a queda e acionaram o Batalhão de Polícia Ambiental (BPA). Quando os policiais chegaram, o cenário confirmava o temor. Não era uma doença da floresta, nem um ataque de predador. Era a consequência direta do encontro entre a fauna amazônica e a infraestrutura humana mal planejada. Os animais foram estabilizados ali mesmo, no meio do roçado, antes de partirem para o atendimento veterinário, onde a luta agora é pela vida e pela possibilidade de voltar a subir em uma árvore de verdade.

O bugio — do gênero Alouatta, conhecido pelo uivo que ecoa por quilômetros na calha amazônica — é mais do que um animal bonito de se ver. Ele é um jardinheiro involuntário da floresta. Ao comer frutas e defecar longe da planta mãe, ele planta a semente da próxima geração de árvores. Cada bugio que morre ou fica incapacitado é um rombo na regeneração da mata. Naquele pedaço de Rondônia, onde a floresta já virou arquipélago cercado por pasto, o trabalho deles é ainda mais urgente.

Este caso não é isolado. Há pouco tempo, outro filhote na região foi vítima da mesma rede elétrica e correu o risco de perder a pata. A lógica é perversa: à medida que a mata é derrubada, os bugios perdem seus corredores aéreos, as copas que se tocam. O fio, alto e firme, parece uma ponte segura. Mas a ponte mata. O choque queima, quebra ossos, fere órgãos internos. Para um animal que vive nas alturas, cair já é um risco; cair eletrocutado é uma sentença quase definitiva.

A equipe veterinária agora avalia a extensão dos danos na mãe e no bebê. Tratar um animal silvestre não é como tratar um doméstico. O estresse de estar em cativeiro, o cheiro de humanos, o ruído da clínica — tudo isso é uma violação do mundo dele. O tratamento exige silêncio e paciência, virtudes que a floresta ensina, mas que a urgência do resgate às vezes esquece. O objetivo é a reabilitação para que possam retornar ao território de origem. Mas o território original, aquele que não tem fios, está cada vez mais difícil de encontrar.

O Batalhão de Polícia Ambiental reforça a orientação de que a população não deve intervir diretamente — o risco de mordida e transmissão de doenças é real —, mas que o aviso rápido é vital. A Polícia Ambiental atua como a ponte entre o acidente e a sobrevivência. No entanto, a solução definitiva não é apenas resgatar. É impedir que o fio passe pelo meio da copa das árvores, instalar isolantes, criar faixas de proteção. É reconhecer que a floresta tem direito de passagem, mesmo que as leis humanas tenham esquecido isso na hora de furar os postes.

Em Alta Floresta do Oeste, o sol se põe sobre os pastos. Se os bugios sobreviverem, talvez haja um dia um novo uivo ao amanhecer. Será um som de resistência, um sinal de que a vida, apesar das queimaduras e da eletricidade, insiste em circular pelos galhos. Mas por enquanto, o silêncio daquela mãe e daquele filhote na mesa de veterinário pesa mais do que o grito que eles não conseguem dar.

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◆ Repórter · Nortícia Amazônia

Bianca Aroucha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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