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Enchente do Rio Marauiá destrói roças e isola milhares de Yanomami no Amazonas

Cheia histórica atinge Terra Indígena Yanomami; perda de plantações ameaça segurança alimentar em Santa Isabel do Rio Negro.

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Bianca Aroucha
Amazonas · AM
03 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 595 palavras
Casas e área de floresta inundadas pelas águas barrentas do rio na comunidade indígena.
Cheia histórica atinge Terra Indígena Yanomami; perda de plantações ameaça segurança alimentar em Sa · Foto: Redação Nortícia

O Rio Marauiá subiu de mansinho, rompendo as margens que conheciam de memória, e invadiu a floresta até transformar o chão firme em um espelho lamoso. Na comunidade Marauiá, dentro da Terra Indígena Yanomami, no extremo norte do Amazonas, a água não respeitou o limite da várzea este ano. Ela avançou sobre as casas, subiu pelas raízes das árvores e, mais cruelmente, engoliu as roças onde cresciam a banana e a mandioca que sustentam as famílias. Para quem vive da floresta, ver o alimento sepultado pela lama não é apenas uma perda agrícola; é o rompimento de um ciclo de vida que garantia o pão de cada dia.

Elizeu Yanomami, que vive nesta região cortada por afluentes do Rio Negro, olha para o terreno alagado e vê um cenário inédito. "Neste ano, todos os povos que moram na comunidade falam que nunca aconteceu algo do tipo nesse rio", contou ele, em relato que chegou à capital por meio de redes sociais e comunicadores indígenas. A memória coletiva dos mais velhos, que guarda as histórias das grandes cheias do passado, não registrou nada parecido com a fúria das águas de 2026. "Ele encheu e foi alagando todas as roças. Perderam banana, manivas e outros tipos de fruta", descreveu Elizeu, listando os itens que desapareceram da dieta de centenas de pessoas da noite para o dia.

A maniva, base da farinha que acompanha o peixe no prato de todo dia, é o principal prejuízo. Sem ela, a segurança alimentar de mais de três mil indígenas da região entra em colapso, obrigando uma dependência imediata de ajuda humanitária que demora a chegar devido à geografia hostil. O Rio Marauiá é um curso d'água tortuoso, cheio de cachoeiras e corredeiras que, em época normal, já exigem habilidade e força do piloto. Com a enchente, o perigo triplica. Não há estradas que levem até Santa Isabel do Rio Negro, e a única alternativa ao barco é o avião pequeno, que precisa encontrar um pequeno claro seco na mata densa para pousar.

O isolamento da comunidade Marauiá se reflete também na ausência de dados oficiais. O Rio Marauiá não é monitorado pela Defesa Civil do Amazonas, o que significa que, enquanto o município de Santa Isabel estava em situação de "atenção" formal, dentro da terra indígena a vivência era de emergência total. A água subiu mais alto do que as previsões baseadas em outros rios, pegando a todos de surpresa. A invisibilidade estatística de um rio não monitorado torna a resposta do Estado mais lenta, enquanto o tempo passa e a fome se instala nas malocas.

A floresta alagada mudou o cheiro do ar. O verde das copas agora reflete na superfície marrom e turva que cobre o que antes era o chão de plantação. Recuperar o que foi perdido exigirá meses de trabalho coletivo. Plantar novamente na terra encharcida não é possível imediatamente; é preciso que o sol seque o chão, que a lama assente e que o ciclo da natureza permita nova semeadura. Até lá, as famílias Yanomami dependem da solidariedade e da logística de socorro que enfrenta a mesma geografia que provoca o isolamento.

No alto Rio Negro, as águas são benignas na maioria do tempo, mas este ano o Marauiá mostrou sua face destrutiva. O pedido que sai da comunidade é simples, mas urgente: ajuda para atravessar este período de espera e fome. Enquanto o rio permanece alto, a vida ali fica suspensa, aguardando a vazante que devolverá as terras para que se possa plantar de novo, reparando os laços que a água tentou, em vão, romper.

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◆ Repórter · Nortícia Amazônia

Bianca Aroucha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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