O fio que liga o calor de Paris ao petróleo da Foz do Amazonas
Ondas de calor na Europa e o debate sobre exploração no litoral paraense revelam como as escolhas em um território afetam o clima do outro.
O mar sobe na Barra do Pará com uma força que não era comum nesta época do ano. Em São Caetano de Odivelas, o pescador Raimundo Silva aperta o nó da rede no cais de madeira, enquanto o sol, aquele mesmo sol que agora derrete o asfalto em Paris, escaldava suas costas antes de o dia amanhecer. A água que bate nos pilares do cais aqui salga, mas a notícia que vem da França ferve: a primavera europeia foi cancelada pelo calor excessivo, e no calendário climático não há mais estações garantidas, apenas alertas.
Entre o rio Sena, em Paris, e a foz do Amazonas, no Pará, não existe uma ponte física, mas existe um canal invisível de ar e consequências que os cientistas chamam de circulação atmosférica, e que os povos da floresta sentem na pele e na pesca. Enquanto a França enfrenta temperaturas recorde, desencadeadas por um sistema de alta pressão anômalo que prende o calor quente do Saara, o debate no Brasil gira em torno de perfurar o fundo do mar na Margem Equatorial, exatamente onde a placa sul-americana se afasta da africana e onde o petróleo jaz dormindo há milhões de anos.
"Se o mundo tá quendo lá fora, é por causa do fogo que a gente acendeu aqui dentro", diz Raimundo, limpando o suor da testa com o braço. Ele não lê relatórios do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mas sabe que o manguezal, que ele chama de berçário, está estressado. O mangue captura carbono melhor que qualquer floresta de terra firme, mas precisa de espaço e de água salobra para respirar. A exploração de petróleo na Foz do Amazonas ameaça exatamente esse equilíbrio: o risco de um derramamento em uma das áreas de maior biodiversidade marinha do mundo colocaria em xeque não só os caranguejos e peixes, mas a capacidade da região de aguentar mais calor.
A conexão não é metafórica. O aquecimento global impulsiona a busca por novas fontes de energia, mas paradoxalmente, a queima de combustíveis fósseis é o motor desse aquecimento. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que o Atlântico Tropical está armazenando mais calor, o que altera os padrões de chuva na Amazônia e intensifica ondas de calor no Hemisfério Norte. O que acontece em Paris — o aumento do consumo, a emissão de gases — tem reflexo na calha do Amazonas; e o que sair do fundo do mar no Pará — se for queimado — vai alimentar o forno que assa a Europa.
No campo da ciência, a Margem Equatorial é vista como uma fronteira crítica. Geólogos da Universidade Federal do Pará (UFPA) alertam para a complexidade geológica da região, comparada às falhas geológicas que causaram tsunamis no Japão. Do outro lado do oceano, ativistas climáticos franceses protestam contra a TotalEnergies, exigindo que a empresa pare de buscar petróleo em países do Sul Global. É um ecossistema de pressão onde o território amazônico é a peça central na estratégia de mitigação, não de exploração.
O governo brasileiro, por meio da Petrobras, defende a exploração como questão de soberania e desenvolvimento econômico. O Ibama, o instituto ambiental, nega licenças citando a falta de estudos sobre o impacto na baleia-jubarte e nos corais de águas profundas. Enquanto isso, em Brasília, deputados discutem o marco legal do petróleo na Amazônia Azul. No meio desse xadrez burocrático, as comunidades tradicionais da costa paraense esperam, olhando para o mar que sobe e para o céu que mudou de cor.
Raimundo volta a atirar a rede. A água do rio encontra o mar com um barulho surdo, como se estivesse reclamando do peso das decisões humanas. Ele sabe que o calor que tira o sono de quem mora em apartamento em Paris é o mesmo que está fazendo o mar subir aqui, devagarinho, sem pedir licença para o cais. No fim, não existe uma primavera separada de um verão, nem uma América do Sul isolada da Europa: todos respiram a mesma atmosfera, finita e cansada.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



