Terras caídas engolem 60 metros de margem e expulsam família em Itacoatiara
Em menos de 30 minutos, agricultor perdeu plantação e terreno para erosão na Costa do Queler; fenômeno é geológico, mas impacta vida ribeirinha.
O Rio Amazonas não respeita cercas, e na Costa do Queler, o limite foi redesenhado à força na última semana. Na comunidade Nova Jerusalém, zona rural de Itacoatiara, a água que beija a borda da floresta decidiu entrar, levando consigo sessenta metros de margem em pouco mais do tempo que leva para assar um peixe. Não foi uma lenta retirada de maré, mas um arranco violento da correnteza, um voraz apetite geológico que devorou o quintal de Cesário da Silva Aguiar. O agricultor, que vive ali há cinco anos, conta que o chão pareceu perder a noção de firmeza, como se o tempo acelerasse para destruir o que ele construiu.
"Eu senti a terra tremendo debaixo do meu pé", lembra Cesário, com a voz ainda marcada pelo espanto do medo. Ele e a esposa estavam no banho de rio, um ato cotidiano de confiança e intimidade com aquele corpo d'água que dá e tira, quando viram a água começar a borbulhar e o barranco, imenso e sólido, começar a arriar. Em menos de trinta minutos, tudo sumiu. Onde havia açaizeiros erguidos em direção ao sol, pés de cupuaçu sombreando o terreiro e a estrutura da casa de farinha onde o casal trabalhava, restou apenas o lamaçal escuro da água em movimento, engolindo verdes e tons de terra num vórtice irreversível.
As terras caídas são a geologia viva e, muitas vezes, cruel da Amazônia. As margens do grande rio são compostas por sedimentos que a própria correnteza depositou em séculos passados e agora retira num ciclo de erosão que remodela o mapa ano após ano. Geólogos explicam que a falta de vegetação de mata ciliar firme na borda acelera o processo, expondo o solo bruto à força da correnteza. Para a ciência, é a dinâmica natural da calha maior buscando seu equilíbrio; para os ribeirinhos como Cesário, é a perda abrupta de patrimônio e a incerteza absoluta de onde dormir na próxima noite. A Defesa Civil Municipal de Itacoatiara registrou o estrago e atestou a sorte da família: a casa de alvenaria ficou de pé, mas a segurança foi embora junto com a terra que a sustentava.
Perder o terreno é perder a história que se planta. As árvores frutíferas que o rio levou naquele domingo não eram apenas alimento para a semana; eram a marca do tempo de Cesário naquele lugar, o investimento de anos de cuidado que se desfizeram em minutos. A comunidade Nova Jerusalém, que carrega o nome de uma terra prometida, enfrenta agora a dura realidade de um solo movediço. Sem a barreira vegetal de raízes profundas para segurar o barranco, a água avança mais rápido, e a terra, cega e pesada, entrega seu peso para o fundo do leito, alargando o rio em metros que pertenciam ao homem.
A família teve que abandonar o sítio, deixando para trás móveis e memórias, a poucos metros da fenda aberta na margem. O medo agora é que o rio volte a tremer durante a madrugada, completando o serviço de engolir a residência. Na margem oposta, a floresta densa assiste, impassível, mas sabe que daqui a pouco também será a vez dela ter a beira comida, num ciclo sem fim. O Rio Amazonas segue para leste, carregando no leito a terra de Cesário, enquanto ele tenta entender como o chão que pisava ontem, firme e produtivo, hoje é apenas fundo para os barcos que passam longe, indiferentes à dor da costa.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
Leia também —
ver mais em Amazônia →
Nortícia AmazôniaO fio que liga o calor de Paris ao petróleo da Foz do Amazonas
Nortícia AmazôniaGarimpo ilegal é flagrado e área é embargada em Chapada da Natividade
Nortícia Amazônia