Países amazônicos formam aliança para enfrentar novo El Niño na floresta
Previsão de 80% para o fenômeno climático mobiliza cooperação entre nações para evitar repetição de crise de secas e incêndios.
A fumaça ainda não chegou, mas o céu já tem aquela opacidade branca que faz o sol parecer uma fruta machucada. Na comunidade de São Joaquim, às margens do rio Envira, no Acre, dona Francisca aponta para a terra ressecada onde a chuva deveria estar caindo nesta época. "É espera", ela diz, varrendo o terreiro com uma vassoura de palha que ainda não amarelou.
Essa espera é compartilhada agora pelos governos dos oito países amazônicos. Nesta semana, ministros das Relações Exteriores e do Ambiente aprovaram o reforço da aliança da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), especificamente para monitorar e combater os efeitos do novo fenômeno El Niño, que as agências meteorológicas estimam ter 80% de probabilidade de impactar a bacia a partir do segundo semestre deste ano.
Francisca Huni Kuin, de 62 anos, lembra bem a última grande seca, a que deixou botos mortos de barriga para cima nas lagoas e cortou a ligação com a cidade por dois meses. Ela é coordenadora das artesãs da aldeia. A previsão de uma nova anomalia climática tira o sono dela, não só pela fome que vem com a falta de peixe, mas pelo fogo que sempre segue a falta d'água. "Quando o rio baixa, o fogo vem de fora pra queimar o que sobrou", explica ela, enquanto guarda a farinha de mandioca que tirou do forno antes do sol ficar muito forte.
A preocupação tem fundamento nos números. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Centro de Previsão Climática (NOAA) indicam a transição de condições neutrais para El Niño entre junho e agosto. Para a Amazônia, isso implica uma redução das chuvas abaixo da média dos últimos trinta anos, especialmente no arco sul do bioma. O aquecimento das águas do Oceano Pacífico altera as correntes de convecção que costumam trazer umidade dos Andes para dentro da floresta, criando um cenário propício para queimadas de grande porte.
A aliança discutida no âmbito da OTCA busca criar uma força-tarefa de resposta rápida. É uma tentativa de institucionalizar o que foi pânico em 2024 e 2025, quando a fumaça de Rondônia e do Acre escureceu o céu em São Paulo e forçou o fechamento de aeroportos em Manaus. A estratégia inclui monitoramento integrado via satélites e a troca de recursos militares para o combate a incêndios florestais, além de fundos emergenciais para territórios atingidos.
Autoridades brasileiras destacaram a importância de preservar as Terras Indígenas, que atuam como barreiras contra o desmatamento e, consequentemente, contra o fogo. O decreto estabelece um sistema de alerta que deve chegar aos territórios via Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), garantindo que o aviso chegue antes das labaredas.
De volta a São Joaquim, dona Francisca termina de varrer o terreiro. Ela olha para a nuvem que finalmente se forma no oeste, pequena e acinzentada. Ela não confia na chuva até sentir a água na pele. Até lá, a aliança de presidentes e ministros permanece como palavras escritas em papel, enquanto ela e seu povo organizam os tambores de água, um a um, para esperar o que o clima decidir levar — ou não levar — para a floresta.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



