MPF acusa produtores de soja de intoxicar indígenas Puruborá com agrotóxicos em RO
Lavouras cercam aldeia Aperoí e causam lesões em moradores; MPF pede indenização de R$ 3,6 milhões por danos ao rio Manoel Correia.
O rio Manoel Correia carrega um cheiro estranho nestes últimos tempos, um odor de química que se mistura com o barro e afugenta o peixe. Na aldeia Aperoí, onde o povo Puruborá guarda suas memórias e vive seu cotidiano em Rondônia, a água deixou de ser apenas alimento para se tornar ameaça. Foi nas margens desse rio e dentro das próprias casas, agora encostaladas por hectares de soja verde, que o veneno chegou, trazido pelo vento que sopra das lavouras e pelas valas que cortam a terra sem pedir licença.
Não é uma doença que surge do corpo, mas uma ferida que vem de fora. Adultos e crianças da comunidade começaram a sentir náuseas persistentes e dores de cabeça que não passavam. Na pele, surgiram lesões que o corpo demora a curar, sinais externos de uma contaminação silenciosa que entrou pela respiração e pelo contato. Uma das famílias, cercada de todos os lados pelo plantio, não teve outra escolha senão abandonar a casa onde vivia para tentar preservar a saúde de seus filhos, virando refugiada em seu próprio território.
O Ministério Público Federal (MPF) leu esses sinais na água e na pele e traduziu-os em uma ação civil pública. A denúncia aponta o dedo para três nomes responsáveis pela devastação que se alastra: Wanderson Batista de Moraes, proprietário da área, e os produtores Raijan Cezar Mascarello e Vitor Hugo Talini Mascarello, que arrendam a terra para plantar soja. Eles são acusados de usar agrotóxicos de forma indiscriminada, sem respeitar a distância mínima necessária para proteger quem vive ali, e de abrir valas de drenagem artificiais que despejaram o veneno diretamente no curso d'água.
O resultado dessa invasão química é a mortandade dos peixes, que eram a garantia de comida na mesa, e a contaminação da principal fonte de abastecimento da aldeia. Para o MPF, isso não é apenas um dano ambiental, mas um ataque à dignidade e à existência do povo Puruborá. A ação pede uma indenização de R$ 3,6 milhões, valor que busca reparar não só o prejuízo material, mas o dano moral coletivo de ver o rio onde se bebe água se transformar em um canal de veneno.
A soja avança, empurrando as fronteiras do agronegócio para dentro das terras que tradicionalmente pertencem aos povos da floresta. No caso de Rondônia, a fronteira não é aberta com tratoores apenas, mas com pulverizadores que não respeitam os limites da aldeia. A acusação é de que os produtores ignoraram as regras das Áreas de Preservação Permanente (APP), agindo como se a água do rio Manoel Correia não fosse essencial para a vida dos Puruborá, mas apenas um recurso para escoar seus rejeitos.
A luta agora se move para o campo jurídico, mas na aldeia Aperoí o urgente continua sendo o corpo. Enquanto a justiça decide sobre os milhões de reais de indenização, os Puruborá lidam com o medo no ar e com a água que não pode mais ser bebida sem receio. O território doente pede cura, e a cura começa pelo reconhecimento de que o veneno na lavoura não para na cerca da fazenda: ele escorre pelos igarapés e adentra a carne das pessoas.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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