Moradores do Guamá enfrentam falta de água há cinco dias em Belém
Conserto de adutora na travessa Sete de Setembro atrasa e afeta cerca de 300 famílias; moradores recorrem a mangueiras e carro-pipa.
Dona Conceição de Souza, 58 anos, descê os degraus da rampa da Rua 15 de Novembro com dois baldes plásticos azuis nas mãos. São 7h20 de uma manhã de sol forte no bairro do Guamá, em Belém, e a torneira da casa dela não solta uma gota há cinco dias. Desde que o cano principal da travessa Sete de Setembro estourou na terça-feira, a rotina virou um vai-e-vem de mangueiras emprestadas e baldes pesados.
A ruptura da adutora de 150 milímetros deixou cerca de 300 famílias das quadras 20 a 23 sem abastecimento regular. A Agea (Companhia de Saneamento do Pará) colocou barreiras e placas de sinalização no local, mas o reparo demora mais do que o previsto no ofício de número 084/2026-DIR, que afixaram na parede do mercado do bairro. O texto prometia normalização para quinta-feira à noite, mas na sexta-feira a água continuava só na memória do encanamento.
"A gente já sabe o caminho do mangueiro. Vou na casa da minha filha, no Conjunto Maguari, encher as vasilhas, e volto com o ônibus 208 carregada", diz Conceição, limpando o suor da testa com as costas da mão. Na calçada, três vizinhos fazem fila para usar uma mangueira que um vizinho ligou, ilegalmente, em um hidrante da rua transversal. É o único fluxo constante da manhã.
A lista de reclamações no aplicativo da Agea ultrapassa 140 notificações só para este trecho do Guamá. Seu Raimundo Farias, padeiro há 40 anos na esquina da travessa, teve que fechar o forno na quarta-feira. "Não dá fazer pão sem água. Lavei a vasilha com a que sobrou do tanque, mas acabou. Perdi o dia de venda e ainda precisei mandar buscar água mineral para o café", reclama, apontando para o buraco na rua que agora se transformou em uma lamaçal de esgoto misturado com terra.
A assessoria da Agea informou, por meio de nota, que a equipe de campo encontrou "instabilidades no solo" que dificultaram a escavação e a soldagem dos tubos. A previsão, agora, é de que o serviço termine até as 18h deste sábado. O texto diz ainda que dois carros-pipa foram enviados para a região, mas moradores ouvidos pela reportagem disseram que não viram nenhum veículo da companhia nas últimas 48 horas.
Não é a primeira vez. A rede de abastecimento do Guamá é uma das mais antigas da capital, com tubulações de ferro fundido que sofrem com a corrosão e o peso do trânsito de caminhões na Avenida Almirante Barroso. No último ano, foram registrados 12 rompimentos graves no mesmo setor. A moradora Francisca Chaves, 34 anos, conta que guarda garrafas pet cheias debaixo da pia justamente por esse motivo. "É viver em estado de alerta. Quando tem água, a gente enche tudo. É uma ansidade só",
Enquanto a obra não termina, a fila na mangueira do vizinho continua. Dona Conceição aperta o prazo. "Tenho almoço pra fazer e roupa pra lavar. Na água do mangueiro dá, mas a gente perde a dignidade de ter um cano que funciona em casa", diz ela, subindo a rampa de volta com os baldes cheios.
Reclamações sobre a falta de água no Guamá podem ser feitas pelo Disque 115 da Agea ou pelo aplicativo 'Ouvidoria', disponível para Android e iOS.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


