Com cheiro de tucupi, 3ª Feira Tucuju une agricultura e cultura em Macapá
Evento ao lado do Teatro das Bacabeiras reúne 30 produtores, gastronomia regional e apresentações musicais nesta quarta-feira.
O cheiro de tucupi fervendo subiu a Rua Leopoldo Machado antes mesmo do sol virar a esquina. No panelão de Dona Cida, o caldo amarelo de mandioca-brava ganha corpo com o jambu recém-colhido, prometendo o formigamento nos lábios que define a verdadeira comida do Amapá. É esse o cartão de visita da terceira edição da Feira Tucuju da Agricultura Familiar, que acontece na próxima quarta-feira (3), ao lado do Teatro das Bacabeiras, em Macapá.
Mais do que um comércio, o evento é uma vitrine viva do que a floresta dá quando se respeita o tempo dela. A partir das 8h, o espaço ganha vida com as cores dos cestos de palha e o verde das hortaliças que não conhecem agrotóxico. São 30 agricultores familiares chegando de diferentes regiões do estado, trazendo na bagagem o fruto do trabalho nas roças de várzea e terra firme.
Dentre as bancas, dona Francisca, de Mazagão, expõe sua farinha-d'água torrada com cuidado. Ela sabe o ponto exato em que o farelo doura e fica soltinho, semelhante à areia fofia da praia do Araxá. "É farinha de casa, pra comer no mingau de manhã", garante ela, empacotando o produto em sacos de papel kraft. Ao lado, cachos de bacaba e tucumã disputam espaço com potes de mel de meliponários, o ouro líquido das abelhas nativas.
A feira é também um resgate da memória gustativa da cidade. Enquanto alguns procuram o açaí para fazer o creme no almoço — sem xarope, com a fruta integral e gorda —, outros se deliciam com os pratos quentes servidos no local. O tacacá, preparado na hora, vem com tucupi escuro, goma elástica e camu-camu a flor da pele. É comida que pede calma, colher de pau e paciência para o vapor passar.
Mas não é só de paladar que se vive a Feira Tucuju. O som do tocador de carimbó marca o ritmo das compras. A programação cultural traz apresentações locais, transformando o vão do teatro em palco improvisado para a música regional. O saracotear das saias e o bambolear dos cordões lembram que no Amapá a plantação e a festa sempre andaram juntas. É o ritmo da terra batendo no tambor, enquanto o violão repete modões que falam de enchente e romance na beira do rio.
No setor de artesanato, a criatividade se reinventa. Fibras de arumã transformam-se em peneiras e cestos coloridos, resistência pura do conhecimento indígena que atravessou gerações. A cerâmica marajoara, reinterpretada por mãos amapaenses, ganha formas modernas mantendo a pintura geométrica ancestral. É ali, entre o barro e a mandioca, que a identidade cultural do estado se firma e se apresenta para quem muitas vezes esquece que existe um Norte além das manchetes de Brasília.
A expectativa da organização é receber 300 pessoas ao longo do dia. A ideia é simples e necessária: fazer com que o consumidor olhe nos olhos de quem plantou o alimento que vai para a mesa. Sem intermediários, sem embalagens plásticas excessivas, o troco é a conversa e a certeza da origem. Quem chega curioso sobre como plantar frutas nativas no quintal de casa sai com um punhado de sementes e a dica de quem colhe o fruto há trinta anos. É a educação popular acontecendo sem sala de aula, ao ar livre, com o cheiro de mato como livro didático.
A Feira Tucuju acontece das 8h às 16h (ou até acabar a farinha) no gramado do Teatro das Bacabeiras. O ingresso é gratuito, mas o melhor pagamento é levar um quilo de banana pacovã ou um pote de pimenta de cheiro para casa, garantindo que o cultivo familiar continue pagando as contas de quem alimenta o estado.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



