Feirão do Imposto em Belém exporá carga tributária com gasolina a R$ 2,99
Evento neste sábado mostra peso de impostos no preço final, reduzindo litro de R$ 5,80 para R$ 2,99 e gás de 13kg por R$ 69,99.
Abastecer o carro em Belém pagando R$ 2,99 no litro de gasolina comum é uma anomalia econômica em 2026, uma distorção temporária que expõe a realidade dos preços praticados no Brasil. Neste sábado (30), o "Feirão do Imposto" realizará esse experimento de mercado no Posto Dallas, na Avenida Pedro Álvares Cabral, vendendo o combustível desonerado de todas as tributações federais e estaduais. Para comparação, a média do preço da gasolina no Pará na última pesquisa semanal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) girava em torno de R$ 5,80. A diferença de R$ 2,81 por litro não corresponde a margem de lucro inflada ou custo de produção, mas puramente ao peso do Estado na ponta: PIS/Cofins na esfera federal e ICMS estadual.
Para colocar na escala do bolso do trabalhador paraense: um motorista que abastece 50 litros semanais desembolsa, em média, R$ 290,00. No cenário simulado pelo "Feirão", essa conta cairia para R$ 149,50 — uma economia de R$ 140,50 por tanque. Esse valor, no contexto atual da inflação regional medida pelo IPCA, é suficiente para cobrir quase 60% de um saco de arroz de 5kg na capital paraense. A ação, promovida pelo Conselho de Jovens Empresários (Conjove) em parceria com a Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje), busca traduzir em moeda corrente o que os economistas chamam de "carga tributária indireta", aquela que é invisível na nota fiscal, mas dilaceradora do orçamento familiar.
O Norte do Brasil enfrenta um paradoxo logístico e fiscal. Apesar de estar geograficamente próximo aos polos de refino, como a Refinaria Isaac Sabbá (REMAN), em Manaus, o Pará convive com preços de combustível que frequentemente superam a média nacional. Isso se deve ao custo de frete rodoviário — o differential de frete — e à alíquota do ICMS, que no estado é aplicada sobre o valor total, incluindo frete e outras taxas. O evento de Belém retira apenas a camada tributária, mantendo os custos logísticos intocáveis. O resultado, mesmo assim, é um preço que a Região Sudeste raramente vê, mesmo com a vantagem de estar próxima do pólo produtor de Paulínia.
Outro item que entrará na promocão é o gás de cozinha (GLP), insumo essencial que sofreu alta de dois dígitos no acumulado do ano na região. O botijão de 13 quilos será vendido por R$ 69,99, valor que contrasta com os R$ 110,00 a R$ 120,00 praticados no varejo de Belém. Aqui, o recuo dos impostos representa um deságio de quase 40%. O gás é um item sensível na cesta básica e seu preço atinge diretamente a segurança alimentar das famílias de menor renda. A matemática é implacável: em cada R$ 100,00 gastos no posto, cerca de R$ 45,00 a R$ 50,00 vão para os cofres públicos na forma de tributação incidente sobre o consumo.
A oferta, contudo, é restrita a uma amostra estatística. Serão disponibilizados apenas 3.750 litros de gasolina, suficientes para 150 veículos com limite de 25 litros por unidade, e 50 botijões de gás. A distribuição de senhas começa às 8h, e a expectativa da organização é de filas longas. A limitação quantitativa transforma o evento em um ato político-educativo, e não em uma política pública de redução de preços. É uma fotografia de um cenário hipotético de desoneração total.
Economistas consultados alertam que a retirada total de impostos, embora atraente para o consumidor final no curto prazo, não é uma solução estrutural sustentável sem a contrapartida de um ajuste fiscal severo. O financiamento da máquina pública via combustíveis é um dos mecanismos mais regressivos da economia brasileira, pois onera igualmente o motorista de utilitário de luxo e o mototaxista que usa a moto como ferramenta de trabalho.
O "Feirão do Imposto" deixa uma reflexão necessária para o debate da Reforma Tributária em andamento: qual seria o impacto real na vida do paraense se o país mudasse a forma de tributar o consumo? Enquanto o Congresso discute as alíquotas do futuro IVA, o consumidor de Belém terá neste sábado uma aula prática de economia. A fila na Avenida Pedro Álvares Cabral deve ser o termômetro da insatisfação com os preços atuais. O próximo monitoramento oficial de preços de combustíveis pela ANP está agendado para a próxima segunda-feira, quando os dados das refinarias e das distribuidoras devem atualizar a média nacional.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



