Festa de Santo Antônio no Coqueiro abre junho com cheiro de milho e promessa de paz
Trezena em Ananindeua reúne fé e tradição popular na região metropolitana de Belém, com procissão e comidas típicas até o dia 13.
O cheiro de milho verde já toma a esquina da Avenida Mário Covas antes mesmo do crepúsculo baixar. Em Ananindeua, na região do Coqueiro, a fumaça das barraquinhas começa a desenhar o mês de junho no ar. É o aroma de mungunzá recém-saído da panela, doce e insistente, disputando espaço com o ronco surdo dos fogos de estalo que anunciam: o santo cheiroso está chegando.
A festa junina na metrópole paraense não tem a dimensão rural do interior, mas carrega uma urgência de comunidade que é toda urbana. Nesta segunda-feira (1º), a Paróquia Santo Antônio de Pádua acende a primeira fogueira oficial da temporada, inaugurando um ciclo de devoção e quebra-pau que se estende até o dia 13. O tema deste ano, "Santo Antônio de Pádua, reconstrutor da Paz!", soa como um pedido silencioso feito entre o som da sanfona e o bater do coração.
No bairro do Coqueiro, a igreja não é apenas um ponto de passagem; é o átrio onde o subúrbio se encontra. O pavilhão se enche de gente que vem da maré da Belém-Newtoy e da ferrovia, trazendo o cansaço do trabalho em troca da promessa de um quentão. A abertura é solene: às 19h, o arcebispo Dom Júlio Endi Akamine preside a missa que oficializa a trezena. É o momento em que o sagrado e o popular se beijam no altar.
Mas é no cotidiano da trezena, todos os dias às 18h, que a festa mostra sua alma. Não é só a liturgia de joelhos; é o corredor de promessas, as velas acesas no chão de cimento, os terços deslizando pelas mãos calejadas de quem pede um emprego ou a saúde de um filho. A comida típica, nesse cenário, é comunhão. A canjica, o bolo de macaxeira e o tacacá, servido nas cuias de isopor improvisadas, vão aquecendo a noite fria que começa a se anunciar em junho.
A tradição de Ananindeua resgata o espírito das quadras juninas antigas, antes delas virarem cenário de marketing. Aqui, o "forró" é pé-de-serra mesmo, com sanfona e zabumba, e não a versão eletrônica das rádios. As brincadeiras de rua — pescaria, correio elegante e o cabo-de-guerra — remetem a uma infância que nem o celular apagou. É a cultura popular viva, respirando e suando no meio do povo.
O encerramento promete ser espetacular à moda antiga. No dia 13, a imagem do santo sai em procissão pela Capela do Sagrado Coração de Jesus. É quando o Coqueiro para: o trânsito cede, e as janelas se abrem para ver a multidão passar, carregando velas e cantando ladainhas. É a luz da fé iluminando o asfalto.
Quem quiser começar o junho com o pé direito — e o estômago cheio — já tem endereço certo. A abertura acontece na Paróquia Santo Antônio de Pádua, Avenida Mário Covas, Coqueiro, em Ananindeua. A missa com Dom Júlio é às 19h desta segunda, e a trezena se repete diariamente no mesmo horário. Entre uma oração e outra, vá conferir o mungunzá: dizem que o da Dona Maria, no stand 4, é o melhor da região.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



