Segredos das toadas hits que dividem Garantido e Caprichoso em Parintins
Compositores revelam a anatomia de 'Perrecheiro' e 'Brinquedo Que Canta Seu Chão', as músicas favoritas da torcida nesta edição.
O rufar do surdo no ensaio técnico do Garantido em Manaus não é apenas som: é um baixão que arranca o suspiro da gente e anuncia que o mês santo chegou. É ali, no meio do suor da torcida e da poeira da quadra, que se sente se a toada tem pernas para atravessar o Rio Amazonas até a Ilha Tupinambarana. Em 2026, duas composições já dividem a fidelidade das galeras muito antes do abrir do portão no Bumbódromo: "Perrecheiro", do Boi Garantido, e "Brinquedo Que Canta Seu Chão", do Boi Caprichoso.
Bruno Bulcão, compositor de "Perrecheiro", diz que a faixa nasceu da observação do movimento do corpo na arquibancada. "É um ritmo que o sangue pede. Não é aquela coisa para ouvir sentado, é para soltar o quadril, é para o pé entrar no chão", conta Bulcão, que compõe para o Bumbá de Astro Rei há doze anos. A toada mistura a cadência pesada do maracatu com a urgência do carimbó, uma fórmula que tem se tornado a assinatura sonora dos últimos campeonatos do Garantido.
Do outro lado da avenida, onde o azul brilha, a sensação é de respiro. Adriano Aguiar, pai de "Brinquedo Que Canta Seu Chão", explica que a melodia veio da necessidade de resgatar a raiz lúdica do festival. "O brinquedo é a nossa brincadeira, é o sagrado e o profano dividindo a mesma corda. A letra fala do chão que pisamos, da terra que nos sustenta", diz Aguiar. Diferente da energia frenética do rival, a toada do Caprichoso arrasta a voz, exigindo um canto mais coral, mais coletivo, típico da galera azul que se orgulha da tradição lírica.
O que faz uma toada virar hit não é apenas a melodia, mas a capacidade de traduzir o momento em compasso binário. O pesquisador cultural Raimundo Nonato, especialista no folclore do Rio Negro, observa que as toadas de sucesso hoje funcionam como âncoras para a memória afetiva. "Elas sintetizam o ano de uma comunidade. Daqui a uma década, quando alguém tocar 'Perrecheiro', a galera vai se lembrar da sensação de junho de 2026, do clima, da tensão", analisa Nonato.
Na prática, é guerra de narrativas sonoras. Enquanto "Perrecheiro" convida ao frenesi individual do movimento corporal, "Brinquedo Que Canta Seu Chão" convoca para a união do coro em louvor à origem. No ensaio técnico, o termômetro é claro: onde o som é mais alto, a torcida já vê o placar subindo. A disputa pela alma do festival acontece nas notas graves da zabumba e no brilho dos maracás.
O Festival Folclórico de Parintins acontece nos dias 26, 27 e 28 de junho, no Bumbódromo. Quem quiser sentir a pele arrepiar antes do dia oficial, vale conferir os ensaios finais nas sedes das agremiações em Manaus. A entrada na quadra do Garantido é na avenida Brasil, e a do Caprichoso, na avenida Buriti. Chegue cedo, pois o portão fecha quando o primeiro surdo ecoa.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



