ed. #023
nortıcia
nortícia · cultura · amapá
Nortícia CulturaPaladar na Zona Sul

Festival Brasil Sabor no Amapá transforma Sambódromo em palco de sabores regionais

20ª edição do festival reúne 33 pratos em Macapá, onde o público vota no melhor prato entre o regional clássico e o contemporâneo.

k
Karina Pinheiro
Amapá · AM
29 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 661 palavras
Prato de peixe confitado com aligot de macaxeira servido em mesa de festival gastronômico ao ar livre.
20ª edição do festival reúne 33 pratos em Macapá, onde o público vota no melhor prato entre o region · Foto: Redação Nortícia

O cheiro de camarão e tucupi compete com o mormaço que sobe do concreto do Sambódromo de Macapá. É sexta-feira, 29 de maio, e o gramado da Zona Sul, costumeiramente reservado para o desfile de escola de samba, virou um vasto laboratório de sabores que nem sempre a gente encontra nos cardápios de domingo em família. Lá está o "Aquarela do Brasil", da Divina Arte, servindo um peixe confitado que desmancha suavemente, ao lado de um aligot de macaxeira elástico — aquele que puxa e estica sem quebrar — feito com queijos da região e um bisque de camarão que chega à mesa antes de ser visto, anunciando-se pelo aroma de manteiga e marisco.

É a 20ª edição do Festival Brasil Sabor, e o evento não se resume a uma feira de barracas dispostas ao acaso. É um território de conflito criativo onde a cozinha tradicional do Amapá se encontra com o contemporâneo, sem perder o endereço ou a compostura. Foram 33 opções postas à prova, variando entre hamburguerias ousadas e docerias que resgatam frutas do Cerrado, mas é o núcleo regional que prende a respiração de quem aprecia a boa comida. É ali que o "Los Canaleros Amazônicos", das Delícias da Oci, tenta traduzir em texturas e temperos o que é ser amapaense, misturando a identidade dos povos da calha com técnicas modernas de cozimento. O prato é uma homenagem aos antigos moradores das margens do canal, mas com a solidez da gastronomia atual.

Entre uma garfada e outra, é possível perceber a influência indígena e ribeirinha ganhando status de "alta gastronomia", sem perder a rusticidade que dá o gosto. O festival carrega uma face democrática que escapa aos concursos fechados de gastronomia. Não é apenas um crítico com guardanapo no colo ditando o que é bom ou badinado. É o visitante, aquele que chega suado da caminhada ou com a família inteira em fila, quem tem o poder do voto. De sexta a domingo, o público decide qual prato leva o prêmio de melhor da noite. A disputa vai muito além da técnica de culinária; é uma disputa de memória. O aligot de macaxeira pede licença para substituir o purê francês; o bisque de camarão reafirma sua origem nos rios do norte, negando o status de importação.

Para quem vive na cidade, é o tipo de evento que ressignifica o uso do espaço urbano. O Sambódromo deixa de ser apenas um palco de carnavalesco para virar o principal quartel-general da culinária local. A curadoria mistura o arroz com feijão feito com maestria por mãos experientes com tentativas ousadas de fusão que poderiam dar errado, mas aqui acertam o tom. É uma vitrine fundamental para chefs e empreendedores locais que olham para a floresta e para o rio e veem ingredientes valiosos, não apenas um cenário de fundo para selfies. A programação também reserva espaço para quem bebe e quem quer levar um pedacinho do Amapá para casa, com stands de culinária pet que pegam carona na tendência de tratar o animalzinho com a mesma dignidade da mesa da família.

O ritmo da noite é marcado pelo barulho dos garfos e tigelas, mas também pelas conversas de quem aprova ou reprova a mistura. É um momento de aprendizado coletivo sobre o próprio paladar. O Amapá está se reinventando no prato, e a gastronomia se firma como uma das formas mais potentes de cultura viva na região. Se você quer participar desse julgamento coletivo e colocar a papila gustativa à prova, o relógio está correndo. A votação termina junto com as últimas panelas lavadas no domingo. É o momento de provar o Amapá que está sendo cozido agora, uma colherada de cada vez, longe dos estereótipos.

O Festival Brasil Sabor acontece até este domingo (31), das 18h às 23h, no Sambódromo, na Zona Sul de Macapá. A entrada é franca e a votação pode ser feita presencialmente ou pelo portal do g1. O jantar está servido, e o veredito é seu.

k
◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

Reportagens como essa, no seu e-mail

Newsletter da Nortícia Cultura

Toda terça, uma carta com o que aconteceu de mais importante em cultura no Norte. Sem agenda, sem partido.