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Nortícia CulturaPatrimônio Imaterial

Manifestação Gambá é registrada como patrimônio imaterial do Amazonas

Tradição afroindígena reconhecida pelo COPHAM reúne música, dança e o toque ancestral do tambor em Maués e região.

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Karina Pinheiro
Amazonas · AM
29 de mai. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 549 palavras
Mestre toca tambor de gambá durante cerimônia de registro de patrimônio em Manaus.
Tradição afroindígena reconhecida pelo COPHAM reúne música, dança e o toque ancestral do tambor em M · Foto: Redação Nortícia

O tambor de gambá é feito de um tronco inteiro de árvore da mata, escavado com paciência e revestido por um couro grosso, curtido ao sol. Quando a baqueta toca a pele, o som que sai não é agudo nem estridente: é um rugido grave, quase subaquático, que sobe pelos pés e faz o peito vibrar. Em Maués, no médio Amazonas, esse ritmo marca o tempo não dos relógios, mas da fé e da memória afroindígena que resiste desde o século XIX.

Na quinta-feira passada (28), esse som ecoou até a sala de reuniões do Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Amazonas (COPHAM), em Manaus, mas com um propósito formal: o Gambá recebeu o registro provisório como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial. Não é apenas um título de honra, é um atestado de que o batido que nasceu na roça, no calor entre os rios, ainda tem pulso forte para correr pelo século XXI.

Na sala climatizada do COPHAM, o contraste era visível. De um lado, a burocracia necessária para preservar; do outro, a memória viva que carrega o cheiro de fogueira e o gosto de farinha. Quem segura a ponta dessa resistência é o mestre Ismael Rodrigues Pereira Filho, guardião da Irmandade do Divino Espírito Santo de Maués. Ele estava lá, de terno e sorriso discreto, recebendo o certificado que valida o trabalho de décadas. Ao receber o papel, o mestre lembrou que o verdadeiro patrimônio não é o documento na parede, mas sim os jovens que continuam aprendendo a tocar o caracaxá.

A manifestação é um tecido complexo de música, dança e oralidade. O tambor de gambá é o coração, o caracaxá faz o chocalho metálico que corta o ar e o tamborinho apressa o passo. É uma festa de corpos que se encontram, onde a dança não é apresentação, é prece. Os passos são marcados, o saracoteado é contido, a energia é canalizada para o chão, como se os dançarinos estivessem pedindo proteção à terra que pisam. Essa rede cultural envolve não só Maués, mas também Novo Aripuanã, Borba e chega até os terreiros de Manaus.

Esse registro chega num momento crucial. As tradições orais correm o risco de sumir entre as notícias rápidas do celular e o barulho da cidade. Ao declarar o Gambá como patrimônio, o estado reconhece que saber fazer o tambor, saber cantar as ladainhas e saber dançar a roda são saberes tão importantes quanto construir uma ponte. É patrimônio que se vê com os olhos e se ouve com a pele, uma herança que dialoga com o guaraná e com o rio.

Para sentir o Gambá de verdade, o leitor precisa se deslocar até onde a tradição respira. A festa do Divino Espírito Santo é o palco principal. Em Maués, a Irmandade abre as portas para quem quiser ouvir e aprender. Não é show para turista, é celebração para quem acredita que a memória precisa ser comida e repartida.

A próxima grande roda de Gambá deve acontecer nas festividades do Divino, previstas para o mês de junho, na sede da Irmandade, na região do Centro Histórico de Maués. A ladainha começa cedo, o tambor começa baixo e vai crescendo até a madrugada. A entrada é franca e o único ingresso exigido é o respeito ao ritmo dos mestres.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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