Haitianos em Rondônia vivem dilema de torcida entre Brasil e pátria na Copa
Para a comunidade haitiana em Porto Velho, o duelo histórico desta sexta é um jogo de identidades, memórias e amor por duas nações em campo.
A panela de legumes no fogão a lenha exala um aroma que mistura o gengibre forte do Caribe com o cheiro de mato úmido que entra pela janela de Porto Velho. Na casa de Valner Dieudus, no bairro Pedrinhas, o almoço de domingo antecipa a festa da sexta-feira (19). Ele estende sobre a toalha plástica da mesa a bandeira do Haiti, vermelha e preta com o brasão dourado, e ao lado deita a camisa amarelo-oliva da Seleção Brasileira. São objetos que dividem a lealdade de um homem que nasceu lá, mas virou torcedor daqui.
Pela primeira vez na história das Copas do Mundo, Haiti e Brasil vão se enfrentar na fase de grupos. Para a comunidade haitiana em Rondônia, que se estima seja bem maior que os cem associados oficiais da ASSPO (Associação dos Haitianos em Porto Velho), o jogo é mais do que noventa minutos de bola. É um duelo de identidades que transborda das telas para a vida real.
Valner Dieudus, motorista de aplicativo há seis anos na capital rondoniense, conta que cresceu no Haiti torcendo para o Brasil. "Lá, a gente assistia o Ronaldo, o Rivaldo. Eram craques, parece que voavam", lembra ele, enquanto serve uma colherada de arroz branco no prato de plástico. O sotaque carregado não esconde a emoção ao lembrar da infância em Porto Príncipe. Ele mora no Brasil há quase uma década, mas a garganta aperta ao falar da terra natal. "Vai ser estranho. Se o Brasil ganhar, eu fico feliz porque moro aqui, meu filho nasceu aqui. Mas se o Haiti marcar um gol, eu choro. É meu país".
Ao redor da mesa, Veniel Etilien e Everson Ademat concordam com a cabeça. Eles contam que o futebol foi a primeira ponte de língua e cultura. Antes de dominar o português para pedir emprego ou fazer compras no mercado, eles já sabiam gritar "gol" e xingar o juiz na língua de Camões. "Aprendi o mapa do Brasil torcendo", diz Veniel, rindo. "Eu sabia onde era o Maracanã, onde era o São Paulo, antes de saber geografia de verdade".
Jean Rubens Dorelus, um dos diretores da ASSPO, explica que a data será de confraternização, não de rivalidade agressiva. A entidade, que funciona como um ponto de apoio na capital, organizou uma reunião especial para o jogo. "Vamos nos reunir para assistir juntos. Vai ter comida, música, torcida. Não há inimigos aqui, só duas nações que a gente ama", afirma Dorelus. A comida, aliás, é outro ponto de encontro cultural: o calalou, o legume haitiano com abóbora e carne, divide a mesa com a farofa de mandioca e o frango assado, prova de que a culinária também se misturou na diáspora.
O clima em Porto Velho, quente e abafado como o esperado para uma tarde de junho no Norte, contrasta com o frio da Filadélfia, onde a partida será disputada no Lincoln Financial Field. Mas dentro das casas da comunidade, o calor será o da paixão. Valner diz que já preparou o "kit": camisa número 10 do Brasil, mas com uma fitinha preta e vermelha amarrada no punho. "É a forma de estar nos dois lugares ao mesmo tempo", diz ele. A televisão será ligada às 21h30, horário de Brasília, mas a conversa começa cedo, com memórias de Copas passadas e saudades de um lugar que só existe, para eles, nas histórias e nos jogos.
O encontro da ASSPO para o jogo acontece na sexta-feira, a partir das 20h, na sede da associação, no centro de Porto Velho. A entrada é franca e há promessa de um prato especial após o apito final. Seja qual for o placar, a vitória será da comunidade que encontrou no futebol mais que um esporte: um jeito de ser brasileiro sem deixar de ser haitiano.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



