Haitianos em Roraima vivem dupla paixão na Copa: sonho de volta e amor pelo Brasil
Após 52 anos fora, comunidade em Boa Vista celebra a Grenadiers e vibra com a seleção brasileira, unindo duas pátrias no futebol.
A bandeira azul e vermelha que Jeff Kelly Douezan estende na varanda tem o tecido gasto pelo sol de Porto Príncipe, mas é o vento quente de Boa Vista que a faz bater agora. Jeff, 41 anos, motorista de aplicativo, aperta a madeira da haste com as mãos calejadas pelo volante. No bairro Pricumã, zona Oeste da capital de Roraima, o ar pesado do fim de tarde carrega o cheiro de legume — aquele ensopado espesso de abóbora e carne que cozinha lentamente nas panelas das famílias haitianas — misturado ao aroma de cerveja gelada que escapa dos bares de esquina.
É uma edição da Copa que cabe em uma única vida, ou melhor, que transcende a vida de Jeff. O Haiti não estava no Mundial desde 1974, três anos antes dele nascer. Ver a bandeira da Grenadiers no telão não é apenas assistir futebol; é ver uma história interrompida voltar a rolar. 'É meu sonho, Haiti seguindo na copa e Brasil também', diz ele, o olho brilhando mais do que os faróis do carro que dirige. A frase dele resume a matemática complexa dessa comunidade: a soma de duas paixões que não subtraem uma da outra.
Jeff não é um torcediro casual; ele é um cidadão de duas terras. Saiu da ilha caribenha rumo à Venezuela, buscando ar fresco, mas a crise sopró o vento errado e o trouxe para o Brasil há 14 anos. Ele aprendeu a pisar no acelerador com calma no trânsito de Boa Vista e a chamar de 'nosso' o time canarinho. A adaptação foi tão profunda que ele já sabe diferenciar um bom tacacá de um ruim, mas no domingo de jogo, o sotaque volta a ser o de nascimento e o coração dispara em crioulo. O cenário perfeito que ele desenha com a voz embargada não envolve confronto direto, mas sim uma partilha de glória: 'Quero que o Haiti ganhe um, e o Brasil ganhe o outro. E a gente fique com 4 pontos, e o Brasil fique com 4 pontos também, para que os dois passem. Seria minha alegria ver meus dois times'.
No Pricumã, a Copa virou um evento de antropologia visual. As calçadas se transformam em vitrines vivas dessa dualidade. Crianças nascidas em Roraima, filhas da diáspora, correm com camisas da CBF, mas têm o rosto pintado com as cores da bandeira haitiana. As casas, muitas vezes simples e de alvenaria tosca, ganham adornos: flâmulas presas com arame colorido, desenhos de bolas feitos a giz na porta. Não é exótico, é o encontro de dois mundos que escolheram viver juntos na Amazônia.
A antropóloga e pesquisadora de movimentos migratórios na região, Maria Elena, observa que o futebol funciona como um 'ritual de integração sem assimilação total'. 'Eles celebram o Brasil país de acolhimento, mas reafirmam a identidade haitiana através da seleção de origem', explica. É um equilíbrio delicado, mantido pelo som de uma goleada que ecoa igualmente em português e em crioulo pelas ruas de terra batida do bairro.
A festa não está confinada às salas de estar. A comunidade se organizou para transformar a Associação de Moradores do Pricumã na 'Casa do Haiti' durante o Mundial. Lá, o telão gigante reflete o suor dos jogadores, enquanto no chão de cimento os torcedores dançam entre uma jogada e outra. O cardápio é fusão: tem feijoada para quem não abre mão, mas também tem banan pèze — a banana frita amassada, salgada e crocante que é o comfort food de todo haitiano — e o tal legume, servido com pão fresco que as mulheres fazem em casa.
O próximo jogo da seleção haitiana na competição promete lotar o pátio da associação. O ponto de encontro fica na Rua das Acácias, próxima ao campo de futebol society. A concentração começa uma hora antes do apito inicial. Jeff garante que vai estacionar o aplicativo mais cedo. 'Vou estar lá com minha bandeira, torcendo pelos meus dois times', promete ele. Quem quiser sentir a vibração da Caribe em pleno Roraima, é só seguir o som da batida do tambor e o grito de 'Alé Opé!', o grito de guerra haitiano, que agora ecoa sob o céu do Norte.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
Leia também —
ver mais em Esporte →
Nortícia EsporteHá 12 anos, Manaus via a Arena da Amazônia estrear para o mundo
Nortícia EsporteEm Rondônia, a Copa do Mundo vira festa de rua, telão e som ao vivo
Nortícia Esporte