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Haitianos em Roraima vivem dupla paixão na Copa: sonho de volta e amor pelo Brasil

Após 52 anos fora, comunidade em Boa Vista celebra a Grenadiers e vibra com a seleção brasileira, unindo duas pátrias no futebol.

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Karina Pinheiro
Roraima · AM
19 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 694 palavras
Bandeira do Haiti tremula ao lado da bandeira do Brasil em varanda de casa no bairro Pricumã, em Boa Vista.
Após 52 anos fora, comunidade em Boa Vista celebra a Grenadiers e vibra com a seleção brasileira, un · Foto: Redação Nortícia

A bandeira azul e vermelha que Jeff Kelly Douezan estende na varanda tem o tecido gasto pelo sol de Porto Príncipe, mas é o vento quente de Boa Vista que a faz bater agora. Jeff, 41 anos, motorista de aplicativo, aperta a madeira da haste com as mãos calejadas pelo volante. No bairro Pricumã, zona Oeste da capital de Roraima, o ar pesado do fim de tarde carrega o cheiro de legume — aquele ensopado espesso de abóbora e carne que cozinha lentamente nas panelas das famílias haitianas — misturado ao aroma de cerveja gelada que escapa dos bares de esquina.

É uma edição da Copa que cabe em uma única vida, ou melhor, que transcende a vida de Jeff. O Haiti não estava no Mundial desde 1974, três anos antes dele nascer. Ver a bandeira da Grenadiers no telão não é apenas assistir futebol; é ver uma história interrompida voltar a rolar. 'É meu sonho, Haiti seguindo na copa e Brasil também', diz ele, o olho brilhando mais do que os faróis do carro que dirige. A frase dele resume a matemática complexa dessa comunidade: a soma de duas paixões que não subtraem uma da outra.

Jeff não é um torcediro casual; ele é um cidadão de duas terras. Saiu da ilha caribenha rumo à Venezuela, buscando ar fresco, mas a crise sopró o vento errado e o trouxe para o Brasil há 14 anos. Ele aprendeu a pisar no acelerador com calma no trânsito de Boa Vista e a chamar de 'nosso' o time canarinho. A adaptação foi tão profunda que ele já sabe diferenciar um bom tacacá de um ruim, mas no domingo de jogo, o sotaque volta a ser o de nascimento e o coração dispara em crioulo. O cenário perfeito que ele desenha com a voz embargada não envolve confronto direto, mas sim uma partilha de glória: 'Quero que o Haiti ganhe um, e o Brasil ganhe o outro. E a gente fique com 4 pontos, e o Brasil fique com 4 pontos também, para que os dois passem. Seria minha alegria ver meus dois times'.

No Pricumã, a Copa virou um evento de antropologia visual. As calçadas se transformam em vitrines vivas dessa dualidade. Crianças nascidas em Roraima, filhas da diáspora, correm com camisas da CBF, mas têm o rosto pintado com as cores da bandeira haitiana. As casas, muitas vezes simples e de alvenaria tosca, ganham adornos: flâmulas presas com arame colorido, desenhos de bolas feitos a giz na porta. Não é exótico, é o encontro de dois mundos que escolheram viver juntos na Amazônia.

A antropóloga e pesquisadora de movimentos migratórios na região, Maria Elena, observa que o futebol funciona como um 'ritual de integração sem assimilação total'. 'Eles celebram o Brasil país de acolhimento, mas reafirmam a identidade haitiana através da seleção de origem', explica. É um equilíbrio delicado, mantido pelo som de uma goleada que ecoa igualmente em português e em crioulo pelas ruas de terra batida do bairro.

A festa não está confinada às salas de estar. A comunidade se organizou para transformar a Associação de Moradores do Pricumã na 'Casa do Haiti' durante o Mundial. Lá, o telão gigante reflete o suor dos jogadores, enquanto no chão de cimento os torcedores dançam entre uma jogada e outra. O cardápio é fusão: tem feijoada para quem não abre mão, mas também tem banan pèze — a banana frita amassada, salgada e crocante que é o comfort food de todo haitiano — e o tal legume, servido com pão fresco que as mulheres fazem em casa.

O próximo jogo da seleção haitiana na competição promete lotar o pátio da associação. O ponto de encontro fica na Rua das Acácias, próxima ao campo de futebol society. A concentração começa uma hora antes do apito inicial. Jeff garante que vai estacionar o aplicativo mais cedo. 'Vou estar lá com minha bandeira, torcendo pelos meus dois times', promete ele. Quem quiser sentir a vibração da Caribe em pleno Roraima, é só seguir o som da batida do tambor e o grito de 'Alé Opé!', o grito de guerra haitiano, que agora ecoa sob o céu do Norte.

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◆ Repórter · Nortícia Esporte

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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