ed. #025
nortıcia
nortícia · cultura · pará
Nortícia CulturaFestival de Carimbó

I Festival de Carimbó em Capanema une tradição de rua e shows

Evento gratuito no nordeste paraense conta com Ayrton Gomes e atividades sobre a salvaguarda da rabeca bragantina.

k
Karina Pinheiro
Pará · AM
19 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 610 palavras
Barracão da Associação da Marujada iluminado para festival de carimbó em Capanema.
Evento gratuito no nordeste paraense conta com Ayrton Gomes e atividades sobre a salvaguarda da rabe · Foto: Redação Nortícia

O som da rabeca arranha o madeirame do barracão como quem pede passagem para o passado. Em Capanema, no nordeste do Pará, o ar já carrega o peso da madeira e da expectativa antes mesmo de o sol baixar. É no terreiro da Associação da Marujada de São Sebastião de Capanema (AMSSCAP) que o ritmo se instala neste fim de semana, trazendo de volta o “carimbó de pau e cordas” que a cidade respira. Longe dos teclados sintéticos, o I Festival de Carimbó Estação Capanema promete pisar forte no chão batido, aquele onde a dança nasceu e onde o cansaço não existe quando a roda começa.

O evento gratuito que acontece neste sábado (20) e domingo (21) é mais do que uma sequência de shows: é um respiro de resistência cultural para uma região que viu o ritmo nascer nas praias do litoral, mas que sempre reinventou a forma de dançar. A proposta é clara: ouvir o chamado dos instrumentos tradicionais e garantir que eles não sumam na memória dos mais velhos. Aqui, não se trata de folclore de vitrine, mas da música que toca na rádio do bairro e no terreiro dos vizinhos.

Quem comanda a atração principal é Ayrton Gomes, cantor, compositor e multiinstrumentista do grupo Unidos do Carimbó. Com a experiência de quem percorreu os sítios e as festas de interior do estado, Ayrton traz na bagagem o “carimbó de rua”, aquele feito de improviso, de esquina, sem coreografia de palco, mas com a alma do povo. Ele vem apresentar canções autorais e o que há de mais recente no álbum “Ayrton Gomes, Príncipe do Carimbó”, ainda inédito, que tenta traduzir em melodia a paisagem do interior paraense.

“A ideia é reforçar a tradição do carimbó de pau e cordas, tirar ele do lugar de objeto de museu e trazer de volta para a festa”, explica o artista, que vê na rabeca o coração pulsante da sonoridade local. Não é à toa que a programação abre exatamente com um tributo a esse instrumento que tanto Define a sonoridade bragantina. A rabeca não é um violino; é prima pobre em tamanho, mas riquíssima em raspado e sentimentos, feita nas oficinas clandestinas dos mestres luthiers do Salgado, com madeiras de lei e Verniz de bravura.

No sábado, das 19h às 21h, a noite é de estudo e ouvidos atentos com a palestra “O chamado da rabeca”, focada na salvaguarda da rabeca bragantina, um patrimônio que corre o risco de desaparecer sob o som da eletrônica. É uma oportunidade para entender por que o som levemente desafinado é, na verdade, a afinação correta da nossa história.

No domingo, o ritmo pede mãos à obra. A manhã começa com oficina de rabeca, das 9h às 11h, para quem quer sentir a catinga nas mãos e aprender a tirar as primeiras notas com quem entende do ofício. Em seguida, das 11h às 12h, a roda de conversa discute como proteger o carimbó das apropriações indevidas e do esquecimento comercial. É momento de mestres e aprendizes se olharem e reconhecerem que a música não para no tempo, ela apenas troca de instrumento.

O barracão da AMSSCAP fica no coração de Capanema, um espaço que a Marujada construiu com esforço e muito arrastar de pé. O encontro é gratuito e aberto a quem quer sentir o carimbó de verdade, sem efeitos especiais, apenas a força do ritmo que pega na cintura e não solta mais.

O I Festival de Carimbó Estação Capanema acontece neste sábado (20) e domingo (21) na Associação da Marujada de São Sebastião de Capanema (AMSSCAP). A programação cultural começa às 19h no sábado e às 9h no domingo. Entrada franca.

k
◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

Reportagens como essa, no seu e-mail

Newsletter da Nortícia Cultura

Toda terça, uma carta com o que aconteceu de mais importante em cultura no Norte. Sem agenda, sem partido.