IC aponta que motocicleta estava parada quando jovem foi baleado em Manaus
Perícia contrapõe versão de resistência em ação policial no bairro Alvorada em abril.
O laudo conclusivo do Instituto de Criminalística (IC) do Amazonas aponta que a motocicleta conduzida por Carlos André de Almeida Cardoso, de 19 anos, já se encontrava imobilizada ou em velocidade insignificante no momento em que o jovem foi atingido por um projétil de arma de fogo. O documento, que integra os autos do inquérito policial, contesta a dinâmica inicialmente sugerida de um acidente de trânsito durante perseguição.
O incidente ocorreu na madrugada de 19 de abril, na rua 6, bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste de Manaus. Segundo a perícia, o veículo estava engatado na segunda marcha, dado técnico que, segundo os especialistas, é incompatível com uma fuga em alta velocidade ou com uma colisão subsequente contra a viatura da Polícia Militar. O relatório afirma categoricamente que não houve impacto físico entre a moto e o carro da polícia antes do disparo fatal.
Detalhadamente, o engate na segunda marcha é um indicador técnico crucial. Na dinâmica de uma motocicleta, a primeira marcha oferece força mas baixa velocidade, enquanto a segunda permite uma transição. O fato de o veículo estar nesta configuração, associado à ausência de marcas de frenagem brusca (derrapagem) no asfalto, reforça a tese da parada total. O laudo detalha que o motor ainda podia estar ligado, mas a rotação não correspondia a uma tentativa de fuga agressiva.
A conclusão do IC baseia-se na reconstrução da cena e na análise de imagens de circuito interno de segurança. As gravações mostram a abordagem desde o início, incluindo o cerco à vítima e o momento dos tiros. A perícia cruzou as marcações temporais do vídeo com as lesões e a posição da moto para estabelecer a trajetória da bala e o estado de movimento do condutor. O laudo descarta qualquer manobra evasiva que justificasse o uso da força letal por risco de atropelamento.
A morte de Carlos André gerou um inquérito na Delegacia Especializada em Homicídios (DEH). A investigação visa determinar se houve excesso por parte dos agentes de segurança pública. Embora o boletim de ocorrência tenha registrado o episódio como um confronto, a nova evidência técnica tende a alterar a classificação do fato para homicídio doloso, exigindo uma resposta fundamentada da corporação.
A defesa da família, ao ter acesso ao laudo, manifestou a intenção de requerer o indiciamento dos policiais envolvidos. Nos termos da legislação processual penal, a perícia é prova material de suma importância para embasar a denúncia do Ministério Público. O advogado da família destacou que o documento derruba a tese de "auto de resistência", nomenclatura antiga utilizada para classificar mortes em confronto com a polícia, que já foi abolida formalmente dos registros estaduais, mas cuja prática narrativa ainda persiste em alguns relatos iniciais.
A Corregedoria da Polícia Militar instaurou procedimento administrativo para avaliar a conduta dos militares. Enquanto isso, o inquérito civil e policial segue em segredo de justiça na DEH. Os peritos que assinaram o laudo poderão ser convocados a prestar esclarecimentos em juízo, caso o caso vá a júri ou seja aceita uma proposta de suspensão condicional do processo. A família de Carlos André, residente na zona Norte de Manaus, aguarda os desdobramentos da investigação.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



