Da roça para Medicina: jovem supera obstáculos e realiza sonho na UFT
Entre a enxada e o livro, Fernando Abreu trilhou um caminho de esforço em Itaporã até conquistar a vaga em Medicina.
Fernando Abreu Miranda, 17 anos, encosta a mochila cheia de livros de Anatomia na mesa da cozinha do apartamento em Palmas. Lá fora, o sol do entardecer bate no concreto do prédio onde divide o aluguel com uma prima, mas ele, por um instante, busca a sombra do pé de manga que tinha no quintal de Itaporã. A transição não é apenas de cidade; é de um mundo para o outro, da enxada para o bisturi, ainda que virtual por enquanto.
Há poucos meses, o chão que pisava era o da roça, cedendo sob o peso do trabalho braçal e das raízes de mandioca. A rotina era marcada pelo canto do galo, não pelo despertador do celular. Enquanto o sol subia e escaldava as costas no campo, a cabeça dele já estava decorando fórmulas, repetindo conceitos de Química e Biologia em sussurros, entre uma fileira e outra de plantação. "Um sonho nunca é impossível", diz ele, como quem constata uma verdade simples, óbvia, que demorou a nascer. Foi assim, misturando o suor do dia com a tinta do caderno à noite, que ele trilhou o caminho até a Universidade Federal do Tocantins.
A família e os amigos não deixaram a data passar em branco. Fizeram uma carreata em Itaporã, buzinas宣告ando a vitória de um menino que sempre foi visto como o estudante quieto, o esforçado. Mas o momento mágico, aquele que fica gravado na memória, foi o do silêncio do quarto. Fernando conta que, quando viu o nome na lista do Sistema de Seleção Unificada, o Sisu, precisou testar a realidade. "Fui conferir e foi quando pensei: ‘devo estar sonhando’, e dormi de novo. Quando acordei, estava realmente lá, chamado", relembra.
Agora, a bagunça benéfica da faculdade ocupa o tempo. Aulas de Bioquímica, Histologia, Fisiologia. Ele divide o aluguel com a prima, aprende a fazer feira sozinho, longe da fartura da mesa da mãe. Diz que os professores são bem-humorados, que a alegria é absoluta no curso, mas nos olhos dele ainda brilha o respeito de quem sabe o custo de cada página lida. Ele não perdeu a humildade da roça; trouxe ela dentro do jaleco branco que vai vestir um dia.
No fim da tarde, Fernando olha pela janela. Palmas se estende, vasta e planejada, bem diferente das curvas do campo. Ele pega o livro de Anatomia, abre na página do esqueleto humano, e traça com o dedo o desenho de um osso longo. Parece um galho seco, pensa ele, sorrindo baixinho. O aprendizado começa de novo.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



