Sigilo e isolamento: como são escolhidos os jurados do Festival de Parintins
Responsáveis por definir o campeão entre Garantido e Caprichoso, jurados passam por seleção rigorosa e ficam incomunicáveis durante os três dias de festa.
O chão do Bumbódromo treme quando o Garantido entra na arena. Lá em cima, na cabine hermética, o som chega abafado, como se estivesse debaixo d'água. Para a pessoa que segura a caneta e a ficha de avaliação, o isolamento é a única regra que vale mais que a toada. Não é à toa que o processo para se sentar na cadeira de jurado do Festival de Parintins é cercado de um mistério que lembra mais um conclave do que folclore.
Escolher quem vai decidir o destino do Azul e do Vermelho não é tarefa para amadores. Em 2026, não haverá um novo edital público largo como nos anos anteriores. A organização recorreu ao banco de dados da chamada "Escola de Jurados". É um casting interno, rigoroso, que olha mais para o currículo técnico do que para a torcida. São profissionais que já passaram pela peneira e conhecem cada vírgula do regulamento vigente, válido até o fim deste ano.
A lista é feita longe dos olhares curiosos. O nome do jurado só é revelado na véspera, e durante os três dias de festa — 26, 27 e 28 de junho — o contato com o mundo exterior é zero. Celulares são confiscados, a comunicação com a plateia é proibida e até o deslocamento é monitorado. É uma quarentena de honra para garantir que o julgamento dos itens alegóricos, rítmicos e de organização seja impoluto, longe de qualquer influência da galera.
A tensão na cabine é palpável. Enquanto a torcida embaixo grita o nome do boi até perder a voz, o jurado tem que dissecar a evolução do marujado, a firmeza da percussão e a criatividade da temática indígena. É uma balada cerebral no meio da maior festa popular do Amazonas. Um ponto a menos ou a mais pode definir a quadra do ano seguinte em Parintins, transformando a noite de glória em luto no quilombo.
Segundo o regulamento analisado pelo g1, o rigor técnico é o filtro principal. Não basta gostar de boi-bumbá ou ter sangue azul ou vermelho nas veias; é preciso entender de folclore amazônico a fundo, distinguir um carimbó bem executado de uma improvisação descuidada, saber o peso da legendagem e a importância da figura do contratante. O Festival de Parintins não é apenas espetáculo para turista, é um patrimônio cultural que se renova na precisão desses julgamentos.
O clima de expectativa já toma conta da ilha. As agremiações apertam os últimos ensaios no curinga, costureiras dão os últimos pontos nas galinhas de Índio e os mestres de toada afinam os instrumentos. Lá no alto da arena, sem que ninguém saiba quem são, os juízes preparam as canetas para escrever a história de mais uma edição da disputa.
A batalha acontece no Bumbódromo, coração pulsante do município. Se você vai, preste atenção nas cabines suspensas. Lá em cima, alguém está assistindo à mesma magia, mas com a responsabilidade de registrá-la no papel com frieza e paixão técnica.
O Festival de Parintins rola nos dias 26, 27 e 28 de junho. A festa começa cedo e a tensão sobe junto com o calor da noite. Garanta sua cadeira, molhe o lápis e prepare o grito.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



