Fiéis confeccionam tapetes de serragem para Corpus Christi em Manaus
Voluntários usam serragem, areia e café para criar arte efêmera nas ruas de Manaus, Manacapuru e Tonantins.
O cheiro de madeira crua e anilina invade o nariz antes mesmo de se ver o salão. Na Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, no coração do Adrianópolis, bairro de classe média de Manaus, o piso concreto desaparece sob montes de serragem colorida. São pilhas de amarelo ouro, vermelho rubro e verde floresta, esperando para virar arte. É véspera de Corpus Christi, e a tradição de transformar o chão da rua em altar ganha contornos de ofício sagrado aqui no Amazonas.
A serragem não vem limpa da fábrica; é o resíduo que sobra, o "resto" que se torna precioso nas mãos dos fiéis. Misturada com areia fina para pesar e evitar que o vento leve, e umedecida com água e cola caseira, a madeira vira tinta. Nas mãos de voluntários como Rosa Adília, a psicóloga que coordena o grupo, o pó ganha forma. Há quem use um funil de papelão para traçar as linhas finas do desenho, e quem use as mãos nuas para espalhar o fundo, uma textura áspera que marca a pele. "É um trabalho maravilhoso", diz ela, enquanto observa um adolescente de 15 anos aprendendo a pintar um cálice sem borrar as bordas.
A noite de quinta-feira é a mais intensa. A iluminação pública ajuda, e as lanternas de celular formam constelações sobre o chão enquanto os voluntários terminam o acabamento. O roxo, cor litúrgica do Espírito Santo, é o mais difícil de fixar; requer mais anilina, mais paciência. Vizinhos que não participam da confecção param nas sacadas para olhar. O som predominante é o chiado da serragem sendo espalhada e o sussurro das orações em grupo. É um momento em que o Adrianópolis, bairro de avenidas largas e trânsito, recupera uma quase vila, centrado na calçada da igreja.
O ato de fazer o tapete é, em si, a prece. Não é só decoração; é a preparação do caminho. Em Manacapuru, cidade às margens do Solimões, a comunidade usa a terra local para dar cores diferentes. Em Tonantins, no interior profundo, a festa é menor em número, mas igual em intensidade. Em Manaus, a escala exige logística. Começa na terça-feira, desenha-se o molde na calçada com giz. Na quarta, o enchimento. Na quinta, os detalhes finais em café moído e casca de ovo triturada para o brilho puro, sem plástico.
O tapete de serragem é a arte do efêmero levada ao extremo. Diferente de um mural ou uma pintura de igreja, ele está fadado a acabar no momento em que a procissão se inicia. O peso do andor, o sapato do padre, os pés descalços dos fiéis — tudo isso vai desmanchar a obra em minutos. Mas é essa destruição que consagra a obra. É a oferenda do tempo, do suor e das costas dobradas sobre o asfalto quente. A promessa é que a chuva, comum nesta época em Manaus, respeite o esforço. Mas se cair, a serragem vira lama e a festa muda de cor, sem perder a fé.
Quem quiser ver o tapete pronto, antes do passo da procissão, deve passar pela manhã de quinta ou início da noite de sexta na frente das igrejas centrais. Em Adrianópolis, a carreata sai às 18h. O tapete espera o sacrifício para se tornar memória.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



