Lambateria completa 10 anos e confirma festival na semana do Círio em Belém
Edição de 2026 celebra os 50 anos da lambada e mantém tradição na véspera do Círio de Nazaré com ritmo amazônico e caribenho.
O som metálico do reco-reco encontra o brilho da guitarra elétrica e desce a ladeira. Há dez anos, a Lambateria transformou a esquina do Cruzeiro do Catete, em Belém, num santuário do ritmo amazônico. O que parecia um sopro de vento na quadra nazarena se firmou como correnteza. Nesta segunda-feira (16), a casa apagou as velinhas de uma década de resistência cultural e já entregou o presente que o público esperava: a oitava edição do Festival Lambateria está confirmada para 9 de outubro, a véspera sagrada do Círio de Nazaré de 2026.
Sonia Ferro, a diretora-geral que viu o projeto nascer como um sopro e crescer para encher praças, respira fundo. "Estamos muito felizes de anunciar que no ano em que completamos uma década de atividade teremos o Festival Lambateria no formato que a galera conhece", conta ela, com a emoção de quem vê o filho crescer. O formato é aquele que mistura o suor da dança com a elegância da pesquisa histórica, um casamento que poucos conseguem sustentar na capital paraense.
A edição de 2026 tem um sabor especial, cheio de memória e ginga. Ela marca os cinquenta anos da lambada. O tempo passa, mas o "zing-zing" permanece. Tudo começou em 1976, quando Pinduca, o inesquecível Rei do Carimbó, gravou "Lambada (Sambão)" no álbum "No Embalo do Carimbó e Siriá Vol. 5". Foi o primeiro registro fonográfico a batizar o ritmo que, mais tarde, incendiaria pistas do mundo todo. A Lambateria resgata essa origem para mostrar que antes do sucesso global, havia o couro batendo no chão das festas de quintal no Pará.
A programação promete uma viagem sonora que não se limita às fronteiras do estado. A festa costuma reunir artistas ligados à produção amazônica, mas com os olhos voltados para o Caribe e a América Latina. Lambada, guitarrada, carimbó, cumbia, merengue e brega dividem o mesmo palco, sem hierarquias. É a música de fronteira, aquela que desce o rio e sobe a montanha, encontrando no tecnologbrega a versão contemporânea de um povo que não para de inventar maneiras de celebrar.
Na pista, a mistura é de gerações. Vê-se o mais velho, que curtia o sucesso na época do 'Kaoma', dançando ao lado do jovem que descobre a lambada pela via da pesquisa e do resgate. O chão treme ao som do surdo e do maracá. É ali que a Amazônia se reinventa a cada compasso, longe das rótulos de cartão postal. O público vai e vem com caipirinhas na mão, mas os ouvidos atentos à letra que conta a história da cidade.
Belém no Círio é uma cidade de fervor, mas também de som. A quadra nazarena é o período em que o ritmo urbano se encontra com o sagrado. A sexta-feira que antecede a procissão tem um clima de expectativa, de preparação. O festival da Lambateria captura essa eletricidade no ar e transforma em melodia. É o aquecimento perfeito para quem vai seguir a imagem de Nossa Senhora no sábado, mas que precisa, antes, descarregar as emoções na dança.
A casa, ao longo desses dez anos, se tornou um ponto de referência para quem produz cultura fora do eixo mainstream. Foi palco para lançamentos, encontros de mestres da música popular e laboratório para novas bandas. Manter esse espaço vivo em tempos de efemeridade digital é um ato de coragem.
O encontro do dia 9 de outubro promete começar ao entardecer, quando o sol baixa sobre a Baía de Guajará e as luzes do palco começam a pintar a noite. É hora de calçar o tênis confortável, vestir uma roupa leve e se entregar. A dica é chegar cedo, porque a Lambateria não brinca em serviço quando o assunto é celebrar a identidade sonora do Norte. E cinquenta anos de lambada não se comemoram sentado.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



