Marcha para Jesus retoma trajeto antigo e ocupa as ruas de Rio Branco
30ª edição do evento reúne 20 mil pessoas em rota histórica que cruza as pontes da capital acreana.
O asfalto da Avenida Getúlio Vargas estava quente o suficiente para amolecer a sola do chinelo, mas nada esfriava o entusiasmo de quem se aglomerava em frente ao Palácio Rio Branco. Era preciso gritar para ser ouvido, não pela falta de educação, mas porque os tambores já começavam, e o som envolvente das guitarras da banda de apoio ensaiava o ritmo que dominaria a tarde. No ar, um misto de perfume barato, suor e o cheiro de poeira levantada pela multidão que se preparava para ocupar as ruas. Era o trigésimo encontro da Marcha para Jesus em Rio Branco, e a cidade parava para ouvir, e para marchar.
Trinta anos de caminhada significam gerações pisando o mesmo calçamento. Neste sábado, a organização resgatou a rota antiga, aquela que cruza as pontes e conecta os distritos como uma costura na geografia da capital. A decisão de voltar a percorrer o trajeto das primeiras edições não foi por acaso; foi uma forma de resgatar a memória daqueles que começaram o movimento. A Ponte Metálica, aquela que parece torcer o pescoço para olhar o rio Acre lá embaixo, tremia ligeiramente com o peso dos fiéis. Não era apenas uma passeata religiosa; era uma reafirmação de território. De um lado, o comércio fechando as portas com faces curiosas; do outro, o mar de camisas brancas, vermelhas e azuis — as cores das igrejas — avançando em passo compassado.
Suzeli Viriato estava lá, mais uma vez. Empresária, mãe, acostumada a correr de um lado para o outro, mas que neste dia desacelera para acompanhar o passo da família. Há mais de dez anos ela repete o ritual. "É o dia que a gente sente que a cidade é nossa", conta, limpando o suor da testa com o dorso da mão enquanto ajusta o chapéu do filho mais novo. Ela lembra das primeiras marchas, quando a quantidade de gente era menor, mas o fervor, talvez, o mesmo. Hoje, a expectativa é de que vinte mil pessoas formem a corrente humana que vai do centro ao Segundo Distrito e volta, cruzando a Ponte Sebastião Dantas num vai-e-vem que transforma a estrutura de ferro em um canteiro de louvor a céu aberto.
O som, contudo, é quem comanda o corpo. Não é o gospel suave de rádio; é o gospel de estádio. Quando o cantor Thalles Roberto subiu no palco montado em frente ao cartão-postal da cidade, a distância entre artista e platéia desapareceu. A batida pesada entrou no peito e obrigou até o mais cético a bater o pé. Violões com pedais de distorção que lembravam o rock dos anos 80, teclados que simulam cordas e uma bateria que parece responder diretamente aos aplausos. O repertório misturava os hinos antigos, aqueles que toda criança evangélica do Acre aprendeu na Escola Dominical, com as baladas românticas que dominam as paradas de sucesso atualmente, criando uma trilha sonora que flutuava sobre os telhados baixos do centro.
A marcha atravessa a cidade como uma mancha barulhenta. Na Rua 6 de Agosto, os morros descem até a beira da via. De janelas, pessoas olham. Algumas se juntam à oração, outras apenas observam o fenômeno urbano. É a cultura popular no seu estado mais bruto, sem a curadoria de um crítico ou a iluminação de um teatro, feita de espontaneidade e devoção. O calor aumenta e o sol começa a declinar, transformando a luz dourada da tarde em um laranja profundo que reflete no metal das pontes e no rio Acre, lá embaixo, seguindo seu curso indiferente à fé de quem caminha acima.
A programação continuou até o fim da tarde, quando o retorno ao Palácio Rio Branco fechou o círculo. Não é apenas uma festa; é um mapa demográfico das igrejas evangélicas do Acre. Das grandes congregações neopentecostais aos pequenos grupos de bairro, todos estavam lá, unidos não pela teologia, mas pela música e pelo ato de ocupar a rua. O crente do Norte tem um jeito próprio de crer, misturado ao clima, à geografia difícil e à necessidade de comunidade. A marcha é o retrato disso em movimento.
Quem quiser sentir o clima de perto ou pegar o restinho da programação cultural e religiosa de domingo em Rio Branco, a dica é chegar cedo no Largo da Biblioteca, onde costumam se concentrar os grupos menores após os grandes shows, ou passar pela feira de artesanato da Gameleira, onde o colorido das peças em madeira e sementes conversa com o ritmo da cidade.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



