MTE resgata idoso de 64 anos em trabalho escravo em Terra Alta, no Pará
Jornada de 63 horas e ausência de registro formal caracterizaram a exploração no nordeste paraense.
Um trabalhador de 64 anos foi encontrado em Terra Alta, no nordeste paraense, cumprindo uma jornada semanal de 63 horas sem registro em carteira — um quadro de exploração que o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) classificou como condição análoga à escravidão. A fiscalização, realizada na última quinta-feira (17), apontou que o idoso estava responsável por toda a manutenção da propriedade rural, acumulando funções de tratador de animais e serviços gerais sem qualquer equipamento de segurança.
Para dimensionar a gravidade: a carga horária apurada excede o limite constitucional brasileiro — de 44 horas semanais — em 43%. Além da sobrecarga física inadequada para a faixa etária, o laudo técnico constatou ausência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e moradia sem condições de habitabilidade, o que caracteriza submissão a trabalho degradante.
Do ponto de vista da economia regional, o caso ilustra a persistência do trabalho análogo à escravidão em elos da cadeia produtiva agropecuária do Pará. O estado historicamente lidera o ranking de resgates no Norte, um reflexo da baixa formalização em propriedades rurais de médio porte afastadas dos grandes centros urbanos como Belém ou Marabá. A informalidade aqui é estrutural: sem registro em Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), o trabalhador não tem acesso a direitos previdenciários, o que agrava o quadro de vulnerabilidade social na velhice.
Segundo informações da assessoria do MTE, a propriedade não oferecia sequer estrutura mínima para atendimento de emergências. Os auditores lavraram o Termo de Retificação de Trabalho e o Termo de Fundamentação para inclusão do empregador na lista "Sujo Empregador". O responsável pela fazenda responde administrativamente pelas infrações trabalhistas e pode ser autuado por danos morais coletivos.
O resgate em Terra Alta soma-se às estatísticas de 2026, que devem ser consolidadas pelo Observatório Digital do Trabalho Escravo no próximo semestre. A expectativa do órgão é que o fortalecimento da fiscalização nos municípios do interior reduza a incidência de casos ao longo do ano, embora a logística de acesso continue sendo o principal obstáculo para a inspeção.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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