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Mulheres no AC têm desemprego de 7,9% e dobro da carga doméstica, aponta IBGE

Sobrecarga de afazeres reduz tempo para qualificação; diferença de taxa de desocupação para homens é de 2,2 pontos percentuais no estado.

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Renato Lobo
Acre · AM
18 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 678 palavras
Mulher trabalha em computador enquanto cuida de criança em casa no Acre.
Sobrecarga de afazeres reduz tempo para qualificação; diferença de taxa de desocupação para homens é · Foto: Redação Nortícia

A taxa de desocupação das mulheres no Acre atingiu 7,9% no trimestre móvel encerrado em abril de 2026, enquanto a dos homens ficou estabilizada em 5,7% — um hiato de 2,2 pontos percentuais que reflete menos a escassez de vagas e mais a sobrecarga estrutural de afazeres domésticos, que consome quase o dobro do tempo da população feminina em comparação aos homens. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para colocar em escala: a taxa geral de desemprego no Brasil oscila em torno de 7,5%, o que coloca a mulher acreana em uma posição de vulnerabilidade ligeiramente superior à média nacional. Contudo, o dado mais relevante para a análise do produto interno bruto (PIB) per capita estadual está na taxa de subutilização — que inclui desalentados e subocupados. Quando se analisa o tempo dedicado a cuidados de pessoas e afazeres domésticos, o IBGE aponta que as mulheres na Região Norte dedicam, em média, 21 horas semanais a essas tarefas não remuneradas, contra pouco mais de 10 horas dos homens. É um déficit de tempo disponível para qualificação profissional ou jornada extra remunerada que impacta diretamente a renda familiar.

"O mercado de trabalho penaliza a mulher não pela competência técnica, mas pela indisponibilidade de tempo que a sociedade impõe a ela", avalia Cláudia Magalhães, economista e professora do curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Acre (Ufac), especialista em demografia econômica. "Enquanto o homem tem sua jornada de trabalho efetivamente valorizada, a mulher carrega o turno da casa, o que reduz sua produtividade no emprego formal ou limita sua entrada em setores que exigem flexibilidade horária. Estamos jogando fora capital humano qualificado por falta de políticas de equipamento social".

Historicamente, a participação feminina no mercado acreano expandiu-se nas últimas duas décadas, impulsionada principalmente pelo setor público e serviços de saúde e educação, mas a curva de ascensão de renda esbarra neste teto de vidro doméstico. A Pnad mostra que, mesmo quando ocupadas, as mulheres recebem, em média, menos que os homens nas mesmas funções, um desvio parcialmente justificado pela interrupção de carrejas para cuidados maternais — um custo econômico que o Estado não internaliza em políticas de creche suficientes para aliviar a jornada. No Sudeste, por exemplo, a maior densidade de creches privadas e públicas reduz ligeiramente esse impacto, permitindo uma inserção feminina de maior valor agregado.

A percepção de que a responsabilidade pelo cuidado é inerente ao gênero feminino começa cedo, conforme apontam relatos sociais e dados educacionais. Para a estudante Kauane Santos, a pressão estrutural inicia antes mesmo da entrada no mercado. "É uma cobrança desde cedo. A mulher tem que formar uma família e ser a base de tudo dentro de casa", relata a jovem, ecoando um cenário que reduz o estoque de capital humano feminino disponível para indústrias e comércios locais que clamam por mão de obra qualificada.

Do ponto de vista macroeconômico, essa discrepância representa uma ineficiência alocativa grave. O Acre precisa qualificar sua força de trabalho para atrair investimentos e depender do Polo Industrial de Manaus ou da agroindústria, e ignorar metade da população potencialmente produtiva por conta de uma divisão de trabalho arcaica é um erro de cálculo. O setor de serviços, principal empregador formal urbano do estado, sofre com a rotatividade feminina alta, causada justamente pela falta de conciliação entre demandas familiares e horários comerciais rígidos.

Vale ressaltar uma ressalva metodológica: a taxa de participação feminina — a proporção de mulheres na força de trabalho ativa — ainda é inferior à masculina no Acre. Isso significa que o universo das que desistiram de procurar emprego por conta dos cuidados domésticos pode estar subestimado na taxa de desemprego oficial, mascarando um problema ainda maior de inatividade forçada. A próxima divulgação dos microdados regionais da Pnad, previstos para o início do terceiro trimestre, deve detalhar se a recente expansão do comércio varejista no estado conseguiu absorver essa mão de obra ou se a informalidade continua a ser o refúgio para quem precisa conciliar trabalho e casa.

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◆ Repórter · Nortícia Economia

Renato Lobo

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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