Pediatras do PSM da 14 denunciam atraso de salário há 3 meses em Belém
Equipe médica afirma não receber desde fevereiro e teme impacto no atendimento; Sesma não se manifestou até agora.
Dra. Camila Souza, 34 anos, olha para o extrato bancário na tela do celular na saída do plantão noturno. O saldo continua o mesmo de fevereiro. Ela é uma das pediatras do Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, o famoso "PSM da 14", no bairro do Jurunas, em Belém, e faz exatamente três meses que o dinheiro não entra na conta. O que deveria ser alívio no fim do mês virou uma conta em aberto que não para de crescer na mesa de jantar.
A situação não é privilégio de ninguém, nem exceção. É a dor de cabeça coletiva de toda a equipe médica da pediatria da unidade. Segundo um ofício enviado pela categoria aos órgãos de classe e à gestão municipal, o pagamento dos plantões médicos está paralisado desde fevereiro de 2026. O que é pior: o salário referente ao mês de março, que teoricamente venceu em maio, está, na linguagem fria do documento, "sem qualquer previsão para quitação". Na prática, são médicos e médicas trabalhando à base de promessas e esperança, enquanto as contas de luz, mercado e escola dos filhos chegam com a data vencida estampada.
O documento, que a Nortícia teve acesso, não usa eufemismos. Ele foi parar na mesa da ONSaúde, a empresa administradora do hospital, e da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), a titular última do repasse de verbas. Mas o alerta também foi enviado ao Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM-PA) e ao Sindicato dos Médicos (Sindmepa). No papel, assinado por quem vê a criança doente de perto todos os dias, os profissionais deixam claro: a insegurança já bateu na porta do sustento familiar e da alimentação básica. O acúmulo de dívidas pessoais é o efeito colateral mais visível e dolorido dessa crise administrativa que parece não ter fim.
O PSM da 14 não é um posto de saúde qualquer na periferia. É uma referência de urgência e emergência na capital paraense, uma porta de entrada crucial para o SUS na região. É o lugar onde mães e pais desesperados com febres altas, crises respiratórias e infecções graves buscam socorro no meio da madrugada. Quando o médico que cuida disso está com a cabeça voltada para saber se o aluguel vai ser pago no fim do dia, a atenção muda. O foco desvia. A categoria médica aponta que o atraso crônico escancara uma "situação financeira insustentável". O medo que ronda o corredor do hospital não é apenas o de ficar no vermelho, mas o de que a estrutura de atendimento comece a falhar por causa da desmotivação ou da necessidade de buscar renda em outras frentes de trabalho para sobreviver.
A bola da vez está com a Sesma. A secretaria é a responsável pelos repasses que mantêm a folha de pagamento em dia e funcionando. A Nortícia procurou a gestão municipal para entender onde está o gargalo exato — se o atraso vem da transferência para a ONSaúde ou se é um problema interno na administradora que a prefeitura não fiscalizou. Até o fechamento desta matéria, o telefone tocou, mas a resposta oficial não veio. O silêncio da prefeitura contrasta de forma dura com o barulho das cobranças que os médicos ouvem todos os dias na vida pessoal.
Seu Roberto, auxiliar de serviços gerais que trabalha no mesmo PSM há dez anos e pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, vê a tensão subir. "Médico cansado não atende bem, e a gente sabe que o dinheiro não cai. A gente tá na torcida pra eles resolverem, porque se o médico embora, o povo que sofre é a gente de fora", conta ele, enquanto varre o pátio da unidade sob o sol forte da manhã de Belém.
Enquanto o dinheiro não cai, a equipe segue o plantão, cumprindo o juramento feito no diploma. Mas o desgaste é visível nos corredores. O documento enviado aos sindicatos pede uma solução imediata para evitar o colapso do setor de pediatria. Para quem usa o serviço e sente a demora no atendimento ou a falta de especialistas, o caminho é pressionar os canais oficiais. Reclamações sobre a falta de pagamento e os impactos diretos na qualidade do atendimento podem e devem ser feitas na Ouvidoria Geral de Belém pelo número 156 ou diretamente no Sindmepa, que está acompanhando o caso de perto. É cobrando e fiscalizando que o serviço de saúde de verdade anda.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



