Governo do Acre responsabiliza construtora após queda de ponte em Sena Madureira
Ponte Frei Paolino Baldassari desabou no Rio Iaco. Governo estadual afirma que construtora Cidade responde por falhas técnicas e vai acionar a Justiça.
Seu Raimundo Nonato, 54 anos, ainda sente o chão tremendo quando lembra da noite de sexta-feira (5). Ele estava parado na margem do Rio Iaco, em Sena Madureira, vendo a água baixar, quando um estrondo ensurdecedor interrompeu o silêncio do interior do Acre. A ponte Frei Paolino Baldassari, a principal ligação entre a sede do município e as comunidades da margem oposta, acabara de cair. “Pareceu um trovão, mas veio de baixo. A poeira subiu e, quando abaixou, o caminho tinha ido embora”, conta Raimundo.
A estrutura, inaugurada com festa em dezembro de 2023, levou mais de dois anos para ficar pronta e agora está no fundo do rio. O desabamento deixou quatro pessoas feridas — três homens e uma mulher — que ignoraram a fita de interdição e tentaram a travessia minutos antes do colapso. Para os cerca de 5 mil moradores que vivem do outro lado do Iaco, o isolamento voltou de uma hora para outra.
No Mercado Municipal de Sena Madureira, o comentário é unânime: a ponte foi entregue com problemas. A merendeira Maria da Penha, 38 anos, que mora na Comunidade São Francisco, diz que percebeu rachaduras nas pilares logo no primeiro mês de uso. “A gente reclamava com o pedreiro, mas eles diziam que era coisa de assentamento, que era normal. Normal não é cair em seis meses”, revolta-se Maria, que agora precisa gastar R$ 20 em mototáxi para fazer o trajeto que antes fazia a pé ou de bicicleta.
O estudante João Pedro Alves, 17 anos, perdeu a aula de reforço no sábado porque não tinha como cruzar o rio. A ponte era o acesso rápido ao colégio estadual. “Meu pai não tem dinheiro pra mototáxi todo dia. Vou ter que faltar até arrumarem um balsa”, diz o garoto, sentado na calçada enquanto olha para o vão onde a ponte existia.
O governo do Acre divulgou nota oficial na manhã deste sábado (6) atribuindo toda a responsabilidade à construtora Cidade. Segundo a assessoria do governador, a obra foi contratada na modalidade integrada. Isso significa que a empresa ficou sozinha responsável por tudo: desde o projeto básico e executivo até a execução da obra. As decisões técnicas que definiram como a ponte seria feita partiram inteiramente da construtora. O governo afirma que vai acionar a Justiça para cobrar reparos e punições pela negligência. A Nortícia tentou contato com a construtora Cidade, mas o telefone estava desligado e não houve retorno até o fechamento desta matéria.
O desfecho trágico era esperado por técnicos. A prefeitura de Sena Madureira e o governo estadual interditaram a estrutura na quinta-feira (4), 24 horas antes do desabamento, após um lauto apontar risco iminente de queda. Câmeras de segurança registraram o momento em que o vão se abriu, carregando a placa de concreto e os feridos. O alarme foi dado, mas a fita amarela não foi suficiente para conter a circulação de quem depende daquele caminho.
Enquanto a briga jurídica começa entre o estado e a empresa, o dia a dia de Sena Madureira precisa de uma solução prática. A prefeitura informou que estuda a viabilização de uma balsa provisória para garantir o transporte de pessoas e motos, mas não há prazo fixado para a chegada do equipamento. A promessa é que a travessia seja gratuita para os moradores atingidos.
Reclamações sobre a fiscalização da obra e pedidos de informações sobre o novo acesso podem ser feitos à Ouvidoria do Governo do Acre pelo telefone (68) 3223-2274 ou pelo aplicativo Acre Cidadão. A fiscalização da obra ficou a cargo da Secretaria de Infraestrutura (Seinf).
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



