Análise detectou rachaduras em área de 16 mil m² antes de ponte cair no Acre
Técnica identificou instabilidade no solo uma semana antes; ponte caiu com quatro pessoas, que ignoraram interdição.
Seu Raimundo Nonato, 45 anos, para a moto na beira do acostamento da AC-405. Ele olha para o vão aberto onde existia a passagem sobre o Rio Iaco. "A gente ouvia a terra estalando, parece que estava roncando", diz o moto-taxista, que todos os dias cruzava a Ponte Frei Paolino Baldassari para fazer fretes em Sena Madureira, no interior do Acre.
A estrutura caiu na noite de sexta-feira (5), levando consigo a ligação entre bairros, mas os sinais de alerta estavam escritos no chão há dias. Uma análise técnica apontou rachaduras profundas e movimentações do solo em uma área de mais de 16 mil metros quadrados no entorno da obra. O terreno ao redor das fundações não aguentou a pressão e cedeu.
Segundo nota da Construtora Cidade Ltda, responsável pela obra, as equipes começaram a identificar os primeiros sinais de instabilidade cerca de uma semana antes do desastre. O solo na região dos bairros da localidade começou a se mover. Nos dias seguintes, a situação piorou rapidamente: surgiram novas rachaduras, houve deslocamento de terra e desníveis acentuados em diferentes pontos ao redor da estrutura.
A preocupação virou interdição na quinta-feira (4). A prefeitura barrou o trânsito sobre a ponte por risco de desabamento. Mas na sexta-feira à noite, a câmera de segurança registrou o momento em que a estrutura desabou. Havia quatro pessoas em cima. Elas ultrapassaram o bloqueio e passaram minutos antes de o concreto cair no leito do rio.
Dona Jandira Lima, 52, comerciante na região, viu a demarcação feita com cal no chão antes do desabamento e conta que o medo tomou conta da vizinhança. "Eles botaram a fita, mas a gente via o buraco aumentando. Quem tem pressa acaba passando por cima, mas a terra estava pedindo socorro", reclama ela, que teme agora pelo aumento do tempo de viagem até o centro da cidade.
O desabamento interrompeu uma via vital para o transporte de mercadorias e para o deslocamento de moradores da zona rural. A Construtora Cidade Ltda informou que monitorava as anomalias geotécnicas, mas o volume da terra movimentada superou as expectativas iniciais de contenção. Não há data prevista para o início da reconstrução.
Moradores que precisam de assistência ou querem registrar denúncias sobre a fiscalização da obra devem procurar a Defesa Civil Municipal pelo telefone (68) 3311-2140. Reclamações sobre a segurança de vias municipais também podem ser feitas na Secretaria de Obras de Sena Madureira, na Rua Manoel Urbim, no Centro.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



