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Rio Acre ganha 1ª descida de boia e procura explosiva surpreende em Rio Branco

Com 300 inscritos para 50 vagas, evento da Semue acontece neste sábado; percurso liga ETA II ao Porto da Base.

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Karina Pinheiro
Acre · AM
27 de mai. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 465 palavras
Grupo de pessoas boiando em bóias coloridas no meio do Rio Acre, com margens de terra ao fundo.
Com 300 inscritos para 50 vagas, evento da Semue acontece neste sábado; percurso liga ETA II ao Port · Foto: Redação Nortícia

A água do Rio Acre encosta na pele com a textura de quem tem pressa. Não é o banho de piscina, cristalino e clorado. É o mergulho na barraça, na corredeira barrenta que carrega o nome do estado e corta a capital com urgência rumo ao Amazonas. No próximo sábado (30), essa relação silenciosa entre cidade e rio ganha volume e voz com a primeira Descida de Boia de Rio Branco.

A procura foi um terremoto de interesse. Quando a Secretaria Municipal de Esportes (Semue) abriu as inscrições, na segunda-feira (25), esperava preencher as 50 vagas com calma. Em poucas horas, eram mais de 300 pessoas pedindo para entrar na correnteza. O formulário online teve de ser fechado antes do prazo, um sinal de que o acreano quer, literalmente, molhar os pés no próprio rio.

O percurso desenha a geografia urbana pelo viés líquido. Começa na Estação de Tratamento de Água (ETA II), nas imediações das bombas de captação, onde a água ainda tem cara de mata, e deságua no Porto da Base, no Centro. São quilômetros flutuando com a paisagem da cidade mudando de ritmo: do sopé do bairro ao burburinho do comércio, vendo a arquitetura de baixo para cima.

Jhon Douglas, o secretário municipal de Esportes, confessa que a demanda pegou a organização de calças curtas. “A procura surpreendeu. Eu esperava que a gente conseguisse chegar às 50 vagas, mas não imaginava essa quantidade de inscritos. Tivemos que encerrar as inscrições porque ultrapassou 300 pessoas”, diz. O critério agora é o acaso, pelo sorteio, ou a rapidez, pelos primeiros da lista.

No Norte, o esporte muitas vezes é sinônimo de adaptação. É jogar bola na quadra quando o campo alaga, é nadar no igarapé quando falta piscina. A descida de boia tira o esporte da quadra de cimento e devolve para o leito natural. Não é apenas uma competição de resistência; é um ato de reapropriação. É ver as garças pousadas na margem, sentir o cheiro de lodo e mato que o vento traz, perceber que o rio é uma rua pública que estava fechada para o banho.

A concentração começa cedo, às 8h, com o sol subindo. Os 50 sorteados vão receber as boias, coletes e instruções de segurança. Os outros 250, que ficaram na lista de espera, e a população em geral, são convidados a compor o coro na chegada. O espetáculo não está só na água, mas no olhar das pessoas na orla, redescobrindo que ali passa uma artéria vital.

Enquanto isso, o Rio Acre segue correndo, indiferente aos sorteios e às burocracias, pronto para receber quem aceita o desafio de se deixar levar por ele. É a cultura se fazendo pelo movimento, pelo corpo que toca a água e pela memória afetiva que se constrói em uma descida assim.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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