Rio Acre ganha 1ª descida de boia e procura explosiva surpreende em Rio Branco
Com 300 inscritos para 50 vagas, evento da Semue acontece neste sábado; percurso liga ETA II ao Porto da Base.
A água do Rio Acre encosta na pele com a textura de quem tem pressa. Não é o banho de piscina, cristalino e clorado. É o mergulho na barraça, na corredeira barrenta que carrega o nome do estado e corta a capital com urgência rumo ao Amazonas. No próximo sábado (30), essa relação silenciosa entre cidade e rio ganha volume e voz com a primeira Descida de Boia de Rio Branco.
A procura foi um terremoto de interesse. Quando a Secretaria Municipal de Esportes (Semue) abriu as inscrições, na segunda-feira (25), esperava preencher as 50 vagas com calma. Em poucas horas, eram mais de 300 pessoas pedindo para entrar na correnteza. O formulário online teve de ser fechado antes do prazo, um sinal de que o acreano quer, literalmente, molhar os pés no próprio rio.
O percurso desenha a geografia urbana pelo viés líquido. Começa na Estação de Tratamento de Água (ETA II), nas imediações das bombas de captação, onde a água ainda tem cara de mata, e deságua no Porto da Base, no Centro. São quilômetros flutuando com a paisagem da cidade mudando de ritmo: do sopé do bairro ao burburinho do comércio, vendo a arquitetura de baixo para cima.
Jhon Douglas, o secretário municipal de Esportes, confessa que a demanda pegou a organização de calças curtas. “A procura surpreendeu. Eu esperava que a gente conseguisse chegar às 50 vagas, mas não imaginava essa quantidade de inscritos. Tivemos que encerrar as inscrições porque ultrapassou 300 pessoas”, diz. O critério agora é o acaso, pelo sorteio, ou a rapidez, pelos primeiros da lista.
No Norte, o esporte muitas vezes é sinônimo de adaptação. É jogar bola na quadra quando o campo alaga, é nadar no igarapé quando falta piscina. A descida de boia tira o esporte da quadra de cimento e devolve para o leito natural. Não é apenas uma competição de resistência; é um ato de reapropriação. É ver as garças pousadas na margem, sentir o cheiro de lodo e mato que o vento traz, perceber que o rio é uma rua pública que estava fechada para o banho.
A concentração começa cedo, às 8h, com o sol subindo. Os 50 sorteados vão receber as boias, coletes e instruções de segurança. Os outros 250, que ficaram na lista de espera, e a população em geral, são convidados a compor o coro na chegada. O espetáculo não está só na água, mas no olhar das pessoas na orla, redescobrindo que ali passa uma artéria vital.
Enquanto isso, o Rio Acre segue correndo, indiferente aos sorteios e às burocracias, pronto para receber quem aceita o desafio de se deixar levar por ele. É a cultura se fazendo pelo movimento, pelo corpo que toca a água e pela memória afetiva que se constrói em uma descida assim.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



