Professores protestam no TJ-AC após suspensão da greve em Rio Branco
Servidores denunciam três anos sem negociação de reajuste e descumprimento do Piso Nacional.
Rosângela Castro, 48 anos, professora da rede municipal de Rio Branco, ajusta o óculos de grau na testa e aponta para a portaria do Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC). É quarta-feira (27), faltam dez minutos para as 9h, e o sol já castiga a calçada da Avenida Getúlio Vargas, no centro da capital. Ela está ali porque a liminar que parou a greve não parou a necessidade de conversar sobre salário. Nas mãos, um cartaz escrito com canetinha preta sobre papel pardo: "Educação não é mercadoria".
O movimento começou cedo. A greve dos profissionais da educação, que havia decretado paralisação total na última terça-feira (20), sofreu um baque com a decisão judicial que obrigou o retorno às aulas. Mas o retorno físico não significou aceitação mental. "A gente volta para a sala de aula porque ama os alunos, não porque o prefeito respeita a gente", diz Rosângela. Ela lembra que a Prefeitura de Rio Branco há três anos não senta à mesa de negociação.
O argumento da categoria é técnico e jurídico, mas o sentimento é de cansaço. A Constituição Federal e a Lei 11.738 do Piso Nacional do Magistério garantem reajustes periódicos. Na prática, os salários da rede municipal ficaram congelados enquanto o preço da cesta básica subiu. "É um desrespeito à emenda constitucional. A gente luta para que o professor continue dando aula com dignidade, e não precisando pegar três turnos para sobreviver", conta.
Junto com Rosângela, está Júlio César, 52 anos, professor de história da Escola Municipal Chico Mendes, no bairro Bosque. Ele conta que o valor da hora-aula atual não cobre nem o deslocamento até a escola, dado o preço da gasolina. "Eu gasto quarenta reais só de passagem de ônibus na semana. Tira isso do salário, e sobra muito pouco", reclama. Júlio diz que a tentativa de diálogo via ouvidoria e assembleias foi ignorada pela gestão atual.
O clima esquentou por volta das 10h, quando uma equipe de assessores do TJ-AC saiu para receber os representantes do sindicato. Não houve diálogo com o desembargador, apenas o trâmite formal de protocolar as reivindicações. A assessoria do tribunal, procurada pela reportagem, informou que não iria se pronunciar sobre o protesto. A bola está agora com o Executivo municipal.
A Prefeitura de Rio Branco, através da Secretaria Municipal de Educação (Semed), manteve silêncio até o fechamento desta matéria. Não houve nota oficial justificando a ausência de negociações nos últimos anos, nem proposta concreta de reajuste apresentada durante a semana de greve. Na prática, os professores voltaram às salas na quarta-feira, mas a insatisfação permanece vibrando nos corredores das escolas da cidade.
O impacto na rotina da cidade é imediato. Pais que tiveram que arranjar cuidados extras para os filhos durante a paralisação agora temem por novas interrupções. O temor é de que a greve retorne com força total se a pauta econômica não for resolvida. O calendário escolar já foi alterado uma vez, e novos dias letivos perdidos podem comprometer o ano letivo de 2026.
O movimento não para por aqui. O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Rio Branco (Sindsemurb) convocou nova assembleia geral para esta quinta-feira (28), às 17h, na sede da entidade, localizada na Rua Floriano Peixoto, no centro. O objetivo é definir os próximos passos jurídicos e de mobilização. Professores e pais de alunos que desejam acompanhar a pauta ou denunciar irregularidades no funcionamento das escolas podem buscar informações diretamente no sindicato ou ligar para a Semed no telefone 156.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



