Professores fazem velório simbólico da educação e mantêm greve em Rio Branco
Paralisação completa 12 dias nesta terça-feira; 51 escolas municipais ainda estão com atividades suspensas na capital.
Professora Marta Lima, 38 anos, vestiu uma blusa preta e pegou um caixão de papelão nas primeiras horas da manhã desta segunda-feira (1º). A destinação não era um cemitério, mas a calçada em frente ao Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC), na avenida Getúlio Vargas, no centro de Rio Branco. Ela e cerca de outras cem pessoas do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinteac) realizaram o que chamaram de "velório da educação municipal". O ato marcou mais um dia de paralisação que já completa duas semanas.
O problema não é novo, mas ganhou um tom mais dramático nesta segunda. A greve por reajuste salarial e melhores condições de trabalho, iniciada no dia 20 de maio, segue sem data para acabar. O caixão, decorado com flores de papel, carregava não apenas o protesto, mas a frustração de uma categoria que sente que o diálogo com a Secretaria Municipal de Educação (Semed) estagnou.
Segundo o levantamento mais recente do Sinteac, divulgado na última sexta-feira (30), 51 instituições de ensino entre creches e Centros de Educação Infantil (CEI) permanecem com as portas fechadas. O número representa uma parcela significativa da rede municipal, afetando diretamente o calendário letivo de milhares de crianças espalhadas por bairros como o Bosque, o Placas e a Conquista.
"A gente está vestindo luto, porque a educação pública na nossa cidade está morrendo", disse Marta, que leciona numa instituição no bairro da Base. Ela conta que, além do salário, a estrutura física das escolas é um calo na rotina dos professores e alunos. "Tem sala de aula sem ventilador, telhado vazando quando chove. O aluno não aprende desse jeito, e a gente se sente desrespeitado". A frase "A Educação foi se calando aos poucos. Hoje, nos resta nos despedir", escrita em um cartaz, resume o sentimento do grupo que ocupou a esquina da rua Benício Constantino com a avenida principal.
O impacto da greve transborda os muros das escolas e entra nas casas das famílias. A dona de casa Jandira Pereira, 41 anos, mãe de dois alunos de uma creche no bairro 2 de Fevereiro, teve de tirar folga do trabalho informal para ficar com as crianças. "Eu vendo pastel na feira, se não saio, não como. Com a creche fechada, fico preso", reclama Jandira. Ela diz que não recebeu comunicado oficial sobre o retorno das aulas e apenas soube que não ia ter aula por meio de um grupo de WhatsApp de outras mães.
Do outro lado, a Prefeitura de Rio Branco afirma estar monitorando a situação. Em nota enviada à imprensa, a Semed informou que está realizando um levantamento diário para verificar o índice de retorno às aulas. A pasta informou que algumas instituições retomaram as atividades na sexta-feira, mas não confirmou o número exato até o fechamento desta matéria. A prefeitura ressalta que o movimento é independente e que as escolas que tiverem número suficiente de professores devem funcionar normalmente.
A tensão política aumenta na medida em que o mês de junho começa. O prefeito tem tentado retomar as negociações, mas o clima é de desconfiança. Profissionais da educação alegam que propostas anteriores não atenderam às necessidades básicas da categoria, como a recomposição das perdas inflacionárias dos últimos anos. O caixão, que ficou estacionado em frente ao TJ-AC durante duas horas, é um símbolo forte de que a paciência esgotou.
Enquanto a negociação não avança, a incerteza paira sobre a semana. Pais e responsáveis devem manter contato direto com a gestão das unidades escolares para confirmar se as aulas vão acontecer. A Prefeitura orienta que reclamações sobre o funcionamento das escolas ou falta de comunicação sejam feitas através da Ouvidoria Municipal, pelo número 156, ou pelo aplicativo Rio Branco Cidadão, disponível para Android e iOS.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



