Padre Júlio Lancellotti cobra bebedouros para população de rua em Belém
Em debate no TRT8, sacerdote pediu à Prefeitura pontos de hidratação como prevenção ao calor do El Niño.
Maria de Nazaré da Silva, 52 anos, pedinte no bairro da Campina, entrou no auditório do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8) antes das 9h desta segunda-feira (1). Ela deixou o cobertor no meio-fio da Avenida Governador José Malcher para ouvir Padre Júlio Lancellotti falar sobre o direito de beber água fria quando o termômetro passa dos 35 graus. O sacerdote veio de São Paulo para o encontro na Cidade Velha, e levou o debate para além da caridade: pediu infraestrutura urbana para quem vive nas calçadas de Belém.
A "Mesa de Diálogo Circular - O Povo da Rua e o Acesso à Justiça: Caminho de Esperança" lotou o plenário do tribunal. O evento foi promovido pelo Instituto Dom Azcona e Irmã Henriqueta de Direitos Humanos (IDAH), com parceria da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará, Movimento Emaús e Universidade Federal do Pará. Enquanto advogados e estudantes discutiam o acesso à Justiça, a conversa descambou para o acesso mais básico: a hidratação.
O pedido prático de Júlio Lancellotti chamou a atenção de Ana Paula Costa, 38 anos, assistente social do Movimento Emaús. O padre sugeriu que a Prefeitura de Belém e os municípios da região metropolitana instalem pontos fixos com bebedouros pela cidade. A medida não é aleatória: é uma prevenção direta ao super El Niño, que os institutos de climatologia preveem intenso para os próximos meses na Amazônia. "A gente vê desmaio por calor todos os dias. Bebedouro público em Belém, que não seja dentro de shopping ou convento, é artigo de luxo", comentou Ana Paula na saída do plenário.
Lancellotti, referência nacional na defesa dos direitos humanos, disse que transformar a indignação em política pública é o caminho. Em um dos momentos mais aplaudidos da manhã, ele sintetizou a postura que esperava dos movimentos sociais locais e das instituições públicas: "Com uma mão se partilha o pão e com a outra se luta". A frase ecoou entre os estudantes da UFPA presentes, que anotavam as diretrizes para cobrar do Executivo municipal.
O TRT8, localizado na Cidade Velha, fica a poucos metros de pontos onde a população em situação de rua se aglomera. O contraste entre o ar condicionado do auditório e o calor externo foi o pano de fundo perfeito para a discussão. Além dos bebedouros, a mesa tratou de documentação, inclusão social e a necessidade de uma política intersetorial que saia do papel.
A agenda da manhã reuniu representantes de instituições públicas e da sociedade civil organizada paraense. O objetivo é que as propostas debatidas no auditório do tribunal se transformem em requerimentos na Câmara de Vereadores e no gabinete do prefeito. Para Ana Paula, a urgência climática não espera burocracia. "Enquanto discutimos a lei, o sol está castigando quem não tem teto. A água é urgência, não é favor", finalizou.
Quem precisa denunciar falta de abrigos ou violações contra a população em situação de rua na capital pode ligar para a Guarda Municipal pelo número 156 ou comparecer à Defensoria Pública do Pará, que fica na Rua Gaspar Viana, no Largo da Palma, em frente ao mercado Ver-o-Peso.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



