Projeto distribui absorventes ecológicos para combater pobreza menstrual no Acre
Iniciativa em Rio Branco une educação menstrual e sustentabilidade, entregando kits reutilizáveis para estudantes da rede pública.
Ywlly Cavalcante, 28 anos, separa os absorventes de pano em cima da mesa da sala dos professores da Escola Padre Carlos Casavecchia, em Rio Branco. O cheiro é de tecido cru, de coisa que ainda não foi usada, limpa e pronta. Ela dobra um por um, com cuidado de quem arruma o altar para uma festa pequena, e coloca dentro das sacolas de pano. Lá fora, o calor do Acre aperta, mas aqui dentro, com o ventilador de teto girando lento, o tempo é outro. É o tempo da espera e do acolhimento.
Há três anos, Ywlly percorre escolas públicas com o Projeto Fluxo Amazônico. O nome evoca o rio, o movimento constante, a água que desce e sobe. No chão, o que ela vê são as meninas que somem do mapa da sala de aula quando chega a menstruação. A pobreza menstrual não se grita, se esconde. É a falta de dinheiro para comprar um pacote de absorvente que custa o preço da comida, é a vergonha da mancha no uniforme azul e branco, é o medo de levantar a mão e pedir para ir ao banheiro e não voltar.
Naquela manhã, o círculo de cadeiras no pátio coberto reúne cerca de quarenta alunos. Tem menina de trança presa, menino de boné virado para trás. Ywlly fala do corpo, das mudanças que a natureza impõe, sem constrangimento. Ela traz para a roda não só o objeto de higiene, mas a conversa que deveria ser natural e vira segredo. Ensina que o sangue não é sujeira, é vida. Ensina que o corpo da mulher não é para o esconderijo, é para o cuidado.
A inovação do Fluxo Amazônico está na mão e na consciência. Os absorventes são ecológicos, reutilizáveis. Feitos de tecido, viram parceiros de um ciclo que se repete, como as cheias dos rios. Ao distribuí-los, o projeto tira das costas das famílias um custo que nunca acaba, pois o descartável gasta e acaba. E tira também do lixo da cidade uma montanha de plástico que não se degrada. É um gesto de proteção para o corpo das meninas e para o corpo da floresta.
"Como são iniciativas inovadoras, a gente vai experimentando metodologias e formas de execução", conta Ywlly, enquanto termina de arrumar a última pilha. Os olhos dela brilham com a luz da janela. "O Fluxo Amazônico que aconteceu no Casavecchia reuniu várias experiências que tivemos ao longo desse período. Não é só chegar e dar. É construir junto, entender a realidade de cada bairro".
As meninas recebem as bolsas. Algumas sorriem baixinho, outras guardam com pressa, no bolso ou fundo da mochila, como se levassem um tesouro. Os meninos olham curiosos, aprendendo que respeito é também ouvir sobre o que não lhes pertence, mas que afeta as irmãs, as primas, as amigas. A dignidade menstrual é isso: poder andar pela escola, pela rua, pela vida, sem medo de vazamentos, sem medo de ser julgada.
O sinal toca, estridente, cortando o ar. O recreo começa. Ywlly recolhe as caixas de papelão vazias. O pátio se enche de vozes, de corridas, de barulho de copos plásticos. Mas para o grupo que saiu dali com os absorventes de pano, a semana que vem promete ser um pouco diferente. Talvez não haja falta na sala de aula. Talvez haja uma certeza a mais. O sol de meio-dia bate no chão de cimento, forte e generoso, secando a última poça de chuva da madrugada.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



