Resgate aéreo leva gestante e bebê grave de Uiramutã para Boa Vista
Chuvas isolam comunidade da Serra do Sol; paciente Ingarikó em trabalho de parto e criança com 80% de saturação foram socorridas neste domingo.
A saturação de oxigênio caía perigosamente para 80% no pequeno corpo do bebê de 1 ano enquanto a chuva torrencial castigava a região da Serra do Sol, no extremo Norte de Roraima. Na comunidade indígena, distante mais de 300 quilômetros de qualquer hospital de referência, o silêncio da floresta era quebrado apenas pelo som da tempestade e pela respiração difícil da criança.
Era manhã deste domingo (31) quando o pedido de socorro chegou. O acesso àquela parte de Uiramutã é exclusivamente aéreo, não tem estrada, não tem barco que chegue rápido. Mas o céu, fechado por nuvens carregadas, não oferecia janela para o pouso. A equipe da secretaria de saúde, coordenada pela médica Yara Lima, aguardava em Boa Vista a qualquer melhora no radar para decolar.
Assim que a visibilidade permitiu, o helicóptero partiu. A missão era dupla e urgente. Ao chegar à comunidade, a equipe encontrou a criança indígena em estado grave. A síndrome respiratória aguda derrubava os níveis de oxigênio a cada minuto. A oxigenoterapia foi iniciada imediatamente na própria pista de pouso, um lamaçal transformado por segundos em um posto de atendimento avançado.
Mas o trabalho no campo não esperava. Enquanto a equipe estabilizava o bebê, o alerta veio de outra maloca. Uma mulher indígena do povo Ingarikó havia entrado em trabalho de parto. As contrações eram frequentes, e a bolsa rompera-se. Era um parto iminente em condições precárias, longe de qualquer sala cirúrgica.
Não havia espaço para dúvidas ou viagens extras. A gestante foi embarcada na mesma aeronave. O voo de volta tornou-se uma corrida contra o tempo e a estabilidade meteorológica. Dentro da cabine, a médica monitorava os sinais vitais da criança e a evolução do trabalho de parto da mãe. A turbulência tornava os procedimentos ainda mais delicados, exigindo firmeza da tripulação.
O pouso em Boa Vista trouxe a primeira etapa da solução. O bebê foi transferido rapidamente para uma ambulância e levado ao Hospital da Criança Santo Antônio. Lá, a equipe de pediatria intensiva recebeu o paciente. O quadro segue grave, mas a estabilização consegunda no voo foi fundamental para não perder o chamado "tempo de ouro" do atendimento.
A mãe Ingarikó seguiu para a Maternidade Nossa Senhora de Nazareth. A instituição é a porta de entrada para a maioria dos partos de risco do estado. Ela chegou ainda em trabalho de parto, onde a equipe obstétrica assumiu o pré-natal imediato para garantir a segurança do nascimento e a saúde do recém-nascido.
O resgate destaca a crise que Uiramutã enfrenta nos últimos dias. O município decretou situação de emergência devido às chuvas intensas. Os rios transbordaram, isolando ainda mais as comunidades que já vivem em regiões de difícil acesso. A infraestrutura urbana sofre, mas é no interior da floresta, onde as pistas improvisadas ficam intransitáveis de lama, que o risco à vida é maior.
Doenças respiratórias são comuns na região, especialmente em períodos de mudança climática, mas agora o inimigo é a água que impede o socorro rápido. O governo de Roraima, por meio da Defesa Civil, atua para manter as rotas de abastecimento e saúde abertas, mas a dependência do helicóptero mostra a vulnerabilidade daqueles que vivem na Serra do Sol.
O Hospital da Criança Santo Antônio funciona na Avenida Venezuela e é referência em terapia intensiva pediátrica. A Maternidade Nossa Senhora de Nazareth fica na Avenida Capitão Ene Garcés. Famílias que precisam de informações sobre pacientes resgatados do interior devem procurar o setor de arquivamento médico ou o guichê de atendimento social das unidades.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



