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Nortícia CidadesEnchente no extremo Norte

Rios transbordam e isolam metade de Uiramutã, no extremo Norte de Roraima

Transbordamento de três rios deixa 8,7 mil pessoas sem acesso a transporte, saúde e educação no município.

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Ananda Rocha
Roraima · AM
28 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 574 palavras
Casas e roças submersas pelas águas do rio transbordado em Uiramutã, Roraima.
Transbordamento de três rios deixa 8,7 mil pessoas sem acesso a transporte, saúde e educação no muni · Foto: Redação Nortícia

O cacique Manoel Ingarikó aponta para onde terminava a cerca de madeira da propriedade da família. Hoje, só se vê água barrenta, galhos de árvores carregados pela correnteza e o telhado de uma casa vizinha que ficou completamente submerso. Na região do Manalai, em Uiramutã, no extremo norte de Roraima, a paisagem mudou drasticamente nas últimas 48 horas. O rio saiu do leito, engoliu as margens e isolou 8,7 mil pessoas — mais da metade dos 15,5 mil habitantes estimados pelo IBGE em 2025.

A prefeitura decretou estado de emergência na quinta-feira (28). O motivo é prático e urgente: pelo menos três rios e um igarapé transbordaram ao mesmo tempo. Não dá mais para entrar ou sair de carro. As pontes que ligam as comunidades à sede urbana sumiram, e as estradas vicinais de terra se transformaram em atalhos perigosos de lama profunda.

"A situação está crítica. O acesso só é possível por via aérea, mas acredito que nem avião consegue pousar, porque até a pista está alagada, apenas aquelas aeronaves que pousam na água", conta Julimar Sena, chefe da Defesa Civil de Uiramutã. Segundo ele, a comunidade Ingarikó e a região do Manalai são as que estão mais comprometidas, com casas totalmente tomadas pela água.

O impacto não é apenas na movimentação das pessoas. O laudo técnico da Secretaria Municipal de Obras, emitido na quarta-feira (27), lista os estragos com precisão: falta de água potável porque os poços artesianos foram contaminados pela enxurrada; perda total da produção agrícola nas roças de subsistência; e suspensão total das aulas e dos atendimentos de saúde básica. Quem precisa ir ao posto de saúde agora depende de um barco que talvez não consiga navegar pela correnteza forte do rio que invadiu a cidade.

Moradores que conseguiram se comunicar via rádio relatam que a água entrou pelas portas e janelas ainda durante a madrugada de quarta para quinta. Muitos deixaram para trás móveis e documentos, correndo para abrigos improvisados em terrenos mais altos, levando apenas os filhos e um pouco de roupas. A Secretaria de Obras já começou o levantamento de prejuízos, mas a chuva forte não dá trégua, dificultando qualquer ação de maquinário pesado para desobstruir as vias.

A geografia de Uiramutã, o município mais indígena do Brasil, é feita de água, mas essa quantidade é anormal para o período. O laudo aponta que as fortes chuvas que atingem todo o estado de Roraima são a causa direta do colapso local. As roças de banana, mandioca e milho, que são a base da alimentação das famílias da região do Manalai, estão debaixo d'água. A estimativa é que o prejuízo agrícola seja alto, exigindo uma ajuda de emergência que deve demorar dias para chegar por conta do isolamento.

Enquanto a água não baixa, o foco do governo municipal é garantir que ninguém fique desabastecido e sem abrigo. O estado de emergência permite a compra emergencial de gêneros alimentícios, água mineral e colchões. O monitoramento está sendo feito 24 horas pela Defesa Civil Municipal em conjunto com lideranças locais, que mapeiam as famílias que ainda resistem nos telhados.

Famílias em Boa Vista que tentam contato com parentes em Uiramutã encontram dificuldade na sinalização de celular. A orientação da prefeitura é manter a bateria carregada, economizar o uso do aparelho para emergências e registrar as ocorrências pelo protocolo de emergência. Reclamações e pedidos de socorro podem ser feitos diretamente à Defesa Civil pelo número 199 ou junto à Guarda Municipal.

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◆ Repórter · Nortícia Cidades

Ananda Rocha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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