Rogério Nobre pinta identidade amazônica em ruas de Macapá
Murais coloridos transformam Macapá em projeto que mistura pirarucu e Marabaixo, resgatando raízes locais.
O vermelho do pirarucu estoura na parede cinza de uma passarela de Macapá. Não é o vermelho fosco da terra batida dos quintais, é o sangue vivo do rio, escancarado em escamas que parecem ganhar volume sob o sol do meio-dia. Lá em cima, suspenso por andaimes que balançam levemente com o vento, Rogério Nobre maneja o spray com a precisão de quem puxa rede. O som agudo do "pschiu" se mistura ao barulho do trânsito lá embaixo, uma trilha sonora urbana para o resgate da memória que a cidade insistia em esquecer no concreto.
A capital do Amapá está ganhando cores, mas não são cores quaisquer vindas de catálogo de decoração. São as cores de quem vive beira de rio, de quem sabe o gosto do tacacá e o batuque pesado do Marabaixo. O projeto "Amapá em Campo" tira a arte das salas refrigeradas — se é que elas seriam suficientes — e joga na cara do passante. No traço de Rogério, o muro frio vira cenário de uma festa que não para, uma aula de história ao ar livre que não cobra entrada.
Rogério Nobre é de Monte Dourado, aquele pedaço do Pará que fica olhando para o Amapá do outro lado das águas do Amazonas. Natural de Almeirim, ele carrega no traço a meninice de desenhos rabiscados nas margens do caderno escolar, um tempo em que a ilustração era fuga e descoberta de mundos. Hoje, a fuga virou chegada: ele trouxe aquela intimidade com o lápis de cor para a grandeza dos muros da capital, transformando intervenções urbanas em atos de afirmação cultural.
O destaque do trabalho vai para o gigante do Norte. O pirarucu em seus murais não é um peixe de aquário quieto. É o monstro sagrado, o sustento de gerações, a lenda feita tinta. As escamas são pintadas com um azul profundo, remetendo às águas pretas dos igarapés, contrastando com o vermelho vivo da boca. E ao lado dele, a roda do Marabaixo ganha vida. Rogério pinta os tambores, as saias rodadas das mulheres, o movimento sincopado da dança que veio da África e criou raízes firmes no Curiaú. É a cultura popular ganhando as ruas, sem pedir licença para o pedestre apressado.
É impossível não parar. Quem está dirigindo pela avenida reduz a marcha. Quem vai a pé esquece a pressa do trabalho e para para tirar uma foto. A arte urbana funciona assim: ela interrompe o automatismo do dia a dia. Ela faz a gente lembrar que Macapá não é apenas uma cidade de funcionários públicos, de prédios baixos e burocracia. Ela é cidade de mandioca, de cerâmica marajoara, de crença forte, de cor que brilha na noite.
As intervenções deixam a cidade mais acolhedora, menos hostil aos olhares. A geometria reta e dura das ruas é quebrada pelas curvas sinuosas dos corpos dançantes e pela imponência dos peixes. É um convite para olhar para cima, para o lado, para fora da tela do celular. Para se reconhecer naqueles traços, sentir orgulho do símbolo que está exposto na esquina.
Rogério Nobre transformou sua trajetória, da ilustração à animação, em pavimentação visual para a identidade local. O que antes era interesse por "formas de expressão visual", como ele diz, virou a voz da cidade. Os símbolos da Amazônia não precisam estar trancados em um livro; eles estão no sinal de trânsito, na parede da escola, na passarela onde o estudante espera o ônibus.
Se você passar por Macapá nos próximos dias, fuja do roteiro óbvio. Vá procurar as paredes de Rogério Nobre pelo centro e bairros. Encontre o pirarucu gigante. Encontre a ladainha pintada no muro. Sinta o cheiro da tinta fresca misturado com a umidade do ar amapaense. É Amazônia que se vê, se toca e se sente, sem precisar de passagem.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



