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Garis artistas transformam lixo em festa na Rua da Copa da Compensa

Inauguração na Zona Oeste une reciclagem e forró em decoração feita por trabalhadores da limpeza urbana.

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Karina Pinheiro
Amazonas · AM
04 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 557 palavras
Rua iluminada com decoração colorida feita de garrafas pet e painéis reciclados durante festa no bairro Compensa.
Inauguração na Zona Oeste une reciclagem e forró em decoração feita por trabalhadores da limpeza urb · Foto: Redação Nortícia

O brilho não vem do ouro, vem do PET. Sob o sol de quase 40 graus que castiga a Zona Oeste de Manaus, o plástico reciclado ganha uma segunda vida mais nobre: virou a bandeira do Brasil que agita a Rua de Acesso, no bairro Compensa. Quem passa por ali, a esta altura do campeonato, não vê apenas um ponto turístico de fanáticos por futebol, mas a prova de que a cidade consegue se reinventar com o que sobra no chão. A “Rua da Copa” que foi inaugurada ontem à noite não é feita de importados caros; é um mosaico de garrafas, isopor e papelão, costurado pelas mãos que varrem o asfalto antes do dia amanhecer.

A decoração temática que toma conta da via é obra dos garis artistas, uma turma que trocou a vassoura pelo pincel por alguns dias, mas sem largar a essência de quem conhece a rua por dentro. Eles pegaram o descarte e transformaram em símbolo de nação. São painéis que contam a história das Copas, esculturas de bolas feitas com base de pneu e muita tinta colorida para disfarçar o cinza da rotina. Não é uma instalação de museu climatizado, com curadoria assinada e toque de recolher; é arte pública que brilha com a luz dos postes e o farol dos carros que diminuem a velocidade para ver o espetáculo.

Na calçada, o ar pesado da umidade amazônica é quebrado pelo ritmo do Forró Di Respeito. A zabumba bate no peito e o sanfona arrasta os pés. Leandro Soares, empresário que mora no Compensa há três décadas, estacou o carro não pela curiosidade sobre o futebol, mas pelo que a rua tinha virado. Ele ouviu a esposa comentar sobre a beleza e resolveu conferir de perto. “A gente não imaginava que teria tanta gente. Ficou muito bonito”, disse, enquanto observava o vaivém de vizinhos que, como ele, saíram de casa para ocupar a rua que, muitas vezes, é apenas um corredor de pressa.

A festa que eclodiu na inauguração mistura o sagrado e o profano do calendário esportivo. Telaões projeta gols históricos, mas o que prende a atenção é o detalhe do acabamento: a textura áspera de um material que já foi lixo e agora é orgulho local. Cantores como Uendel Pinheiro e Mikael subiram no palco improvisado para puxar o axé, mas a voz da comunidade era mais alta. Era o som da vizinhança encontrando a vizinhança, algo raro em tempos de telas individuais.

O que acontece na Compensa é uma lição de cultura viva. A festa popular não precisa de patrocínio de multinacional para ter graça; ela precisa de identidade. Ao usar materiais recicláveis, os garis contam uma história de Manaus que vai além do placar: é a cidade que se sustenta, que reúne restos e faz bonito. É a criatividade transbordando limites orçamentários, transformando o bairro operário em um estádio a céu aberto onde o único jogo que vale é o da convivência.

A “Rua da Copa” fica na Rua de Acesso, na Compensa, Zona Oeste. A decoração segue em cartaz durante o período do mundial e, se a garoa permitir, o forró continua rolando solto nas noites de terça. Vale a pena ir não para ver bandeiras de papel, mas para sentir o chão da Amazônia pulando sob os pés de quem faz a arte acontecer do zero.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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