Tapetes de serragem transformam o Centro de Rio Branco em celebração de Corpus Christi
Comunidade se reúne na Catedral de Nazaré para confeccionar tapetes coloridos em uma tradição que mistura arte, trabalho voluntário e fé no Acre.
O cheiro de serragem úmida e de tura invade as narinas antes mesmo de se ver as cores. É 5 da manhã em Rio Branco, e a esquina da Catedral Nossa Senhora de Nazaré, no Centro, não parece uma esquina: parece um quadro abstrato em construção. Um mar de tijolos coloridos descansa em sacos plásticos, esperando a vez de virar chão. É o ritual de Corpus Christi, onde a fé não é apenas sentida, é pisada.
A tradição é antiga no Acre, mistura o colonizador que trouxe o catolicismo com o caboclo que entende de mão na massa. Não basta comprar pronto; aqui, o tapete tem que ter o suor de quem fez. Desde as primeiras horas da manhã, o movimento é frenético mas silencioso. Não se grita ordens, trocam-se baldes e peneiras com uma cumplicidade de quem já fez isso junto no ano passado e no ano anterior.
Padre Manoel Costa, reitor da catedral, caminha entre os grupos. Ele paramenta a batina, mas a primeira coisa que faz é pegar um pouco de serragem amarela e ajudar a preencher as bordas de um desenho do Santíssimo Sacramento. "Começou cedo, mas a preparação vem de antes", explica o padre, enquanto observa uma criança de sete anos tentando, sem sucesso, não derrubar pó azul na zona branca do desenho. "Semana passada o povo já tava aqui coletando o material, pintando, secando no sol. É um trabalho de amor, não tem salário."
O processo é uma engenharia de precisão rústica. Primeiro, a serragem crua, peneirada até ficar fina como talco. Depois, a tintura. Não é qualquer cor; tem que ser pigmento forte para aguentar o sol da manhã e o vento. Juntar-se para tingir é o primeiro passo da comunhão, um 'puxirum' moderno onde ninguém ganha nada além da promessa de ver a rua bonita para o passinho do Santo.
Lá pelas 8h, o asfalto sumiu. Onde havia buracos e marca de pneu, há agora um tapete quilométrico. Os desenhos são clássicos: a hóstia, o cálice, o coração de Jesus. Mas a execução é 100% acreana. A serragem vem das serrarias da região, a mão de obra é da vizinhança. É a forma que a cidade encontrou de traduzir o dogma da Eucaristia — a presença real de Cristo na hóstia — em algo tangível, colorido, passageiro. "A festa nos faz mergulhar no grande amor de Deus", diz Padre Manoel, limpando o pó das mãos na batina. "Mas é a Eucaristia que nos alimenta. O tapete é o nosso carpete de boas-vindas."
Ao redor, o olhar se perde nos detalhes. Há quem use um funil de papel para fazer as linhas retas, há quem confie só no pulso firme. A noite anterior foi de vigília para muitos, não de oração no banco da igreja, mas de garrafa de água borrifando a serragem para o pó dela não levantar vôo.
A missa campante está marcada para as 9h desta quinta-feira (4). Depois, a procissão vai caminhar por cima dessa obra de arte efêmera. E não tem tristeza nisso. Ao contrário, ver o tapete desfeito pelos pés dos fiéis é o clímax da cerimônia. É o sinal de que a festa saiu do papel — ou da serragem — e virou memória. Até o ano que vem, quando o cheiro de madeira voltar a tomar conta do Centro.
A concentração é na Praça da Matriz, em frente à Catedral. Quem quiser ver o tapete inteiro antes da caminhada deve chegar até as 8h30. A partir das 9h, o Bispo sai em procissão. A entrada é franca, e o único ingresso necessário é a disposição para calçar os sapatos na fé do outro.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



